Com os olhos bem abertos de espanto

Com os olhos bem abertos de espanto

Meia centena de textos que Herberto Helder escreveu na imprensa na década de 1970 foram reunidos no livro "Em Minúsculas". Uma obra que nos revela facetas improváveis do grande poeta.

Herberto Helder foi tudo na vida (e o seu oposto): meteorologista, policopista, bibliotecário, operário fabril, vigilante e... jornalista. Mesmo que nunca se tenha afirmado desse modo. Como escreve no prefácio Daniel Oliveira, filho do poeta, "Herberto Helder não foi jornalista porque sempre foi outra coisa qualquer".

Fosse ou não funcionário do jornalismo, a verdade é que, durante pouco mais de um ano, no início da década de 1970, Herberto trabalhou no "Notícia - Semanário Ilustrado", em Luanda, o mesmo periódico onde escreveriam outros nomes de peso das nossas letras como Natália Correia e Luiz Pacheco.

É provável que essa experiência num meio que não admirava por aí além, como é visível nos textos, se tenha devido à vontade de viver em África: só na primeira metade dessa década viveu em Espanha, França, Bélgica, Holanda ou Dinamarca.

Os escritos agora publicados repousaram nas hemerotecas quase 50 anos até serem recuperados por Daniel Oliveira, Diana Pimentel e Raquel Gonçalves, num trabalho aturado que envolveu investigação, digitalização, transcrição, revisão e seleção.

Livro aparentemente jornalístico, "Em Minúsculas" é, na realidade, uma obra que escapa ao fugaz e transitório que por norma caracteriza a imprensa.

A marca autoral torna redutora a clássica divisão por géneros. Mistura de crónicas, entrevistas e reportagens, estes textos vêm carregados de uma ironia e humor que nem sempre nos habituámos a associar a um poeta tão intenso e visceral como Herberto Helder.

Essa corrosão é bem visível em "O meu turista preferido", crónica cujo ponto de partida foi a notícia que acabara de ler acerca de um turista morto no Adriático por um guarda-sol (!) arrastado pelo vento". "Talvez nunca tenha sentido, na minha vida, uma alegria tão incondicional", escreve, antes de se lançar numa furiosa diatribe que o leva a considerar o turista como alguém que "não vê, não ouve nada. O seu único órgão é um livro de "traveller" cheques".

Com os olhos sempre bem abertos para a realidade à sua volta e uma pena afiada, o fecundo repórter escreve de forma envolvente sobre a aridez dos domingos, as incidências de um Sporting-Benfica ou um misterioso caso de "comedores de orelhas". Mandando às malvas o mito da isenção plena, Herberto Helder observa, comenta, satiriza e, mais importante ainda, faz destes textos seres vivos com muitas histórias dentro.

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