Decifrar as pessoas de Fernando Pessoa

Decifrar as pessoas de Fernando Pessoa

A esquizofrenia de Fernando Pessoa é analisada por Helena Barros num ensaio publicado pela Seda.

Nenhum autor foi, seguramente, tão analisado e esmiuçado ao longo das últimas décadas como Fernando Pessoa. Essa atenção redunda com frequência em polémicas estéreis, como a que aconteceu há dias em torno de uma série de críticas encarniçadas ao poeta a propósito de comentários de teor alegadamente racista e esclavagista.

Essa (pseudo)polémica ignorava o essencial: não só os textos eram de foro privado (e, como tal, não estavam sequer destinados à publicação), como qualquer indivíduo é sempre o resultado da sua época, pelo que analisar, fora do contexto e quase um século depois, desabafos de natureza íntima sobre realidades tidas como universais nesse tempo é, no mínimo, desonesto.

Bem mais pacífica é a assunção da esquizofrenia de Fernando Pessoa. Sucessivos estudos publicados ao longo dos últimos anos tornam evidente esse distúrbio no autor, cujo sinal mais evidente na sua obra será a célebre heteronímia. Todavia, nem essa profusão de ensaios sobre o assunto torna menos recomendável a leitura de "Cada um é muita gente". Acima de tudo, porque a sua autora, Helena Barros, sistematiza essas análises e interpreta-as de modo rigoroso e acessível para um público não necessariamente académico.

Professora do ensino secundário durante 35 anos, Helena Barros procurou sobretudo, como explica logo na nota prévia, "contribuir para a compreensão de Pessoa enquanto ser humano perturbado pela sua esquizofrenia".

Recusando a observação clínica, da competência dos profissionais dessa área, a especialista quis tornar mais próximo do leitor o mundo interior do poeta, marcado por um drama que o acompanhou pela vida fora: a incapacidade de sentir o corpo e a alma como seus.
Esse "seu eu despojado de autenticidade e assassinado por si mesmo" fê-lo recorrer a várias estratégias que o ajudaram a criar a identidade que não tinha. O isolamento a que se entregou teve como objetivo protegê-lo na relação com os outros, minada pela insegurança extrema de que sempre deu mostras.

A "lúcida esquizofrenia" pessoana produziu uma fragmentação do eu, patente na criação de máscaras com que se protegia do mundo. "Pessoa sente o próprio "self" (eu) desligado do corpo. O corpo é sentido como um invólucro estranho e vazio de um "self" autêntico", defende Helena Barros.