Estão a chegar novas biografias de Agustina, Herberto e Amália

Estão a chegar novas biografias de Agustina, Herberto e Amália

Grandes vultos da arte e da cultura portuguesas integram uma nova coleção de biografias, assinadas na sua maioria por romancistas premiados, que a Contraponto vai começar a publicar dentro de alguns meses.

Agustina Bessa-Luís (ABL) é a protagonista do primeiro volume de uma nova coleção de biografias que se propõe desafiar o histórico fraco entusiasmo dos leitores portugueses por um género que, em mercados como o inglês ou francês, é sinónimo de "best sellers" frequentes.

Com a chancela da Contraponto, a coleção vai incidir sobre vultos das artes e da cultura portuguesa, devendo arrancar "no final deste ano ou no início do próximo", segundo o editor, Rui Couceiro. "Está na hora de os portugueses começarem a dar mais importância às biografias. É certo que se publicam muitas, mas regra geral são obras que seguem um registo jornalístico e cronológico, bem diferente das que vamos publicar, com um potencial literário elevado", prosseguiu o responsável.

Para já, são conhecidos os seis volumes inaugurais, dedicados a Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, Manoel de Oliveira, Amália Rodrigues, Herberto Helder e Natália Correia, assinados por, respetivamente, por Isabel Rio Novo, Bruno Vieira Amaral, Paulo José Miranda, Filipa Melo, João Pedro George e Filipa Martins

O principal traço distintivo da coleção é o cunho autoral. Os convites foram endereçados a escritores, na maioria romancistas, com o objetivo de que cada "biografia fosse lida como um romance, sem que isso signifique sacrificar o rigor", assegura Rui Couceiro.

No lote de convidados é possível encontrar autores que têm vindo a trabalhar de perto na obra dos biografados nos últimos tempos. É o caso da romancista Filipa Martins, que terminou há poucos meses o argumento de uma série televisiva baseada em Natália Correia e se encontra agora a escrever a biografia da poetisa.

Em marcha já estão outros projetos biográficos, de que ainda não se sabe o nome, mas que terão o objetivo de chegar a um público mais numeroso do que aquele que em Portugal costuma ler biografias. "Há países onde as biografias são um nicho, em Portugal são um micro-nicho", observa o editor da Contraponto.

Uma Agustina "total"

A meio da gigantesca empreitada da escrita da biografia de ABL, Isabel Rio Novo é uma autora encantada com "um projeto muito especial". Embora não se defina como agustiniana, a finalista do Prémio Leya por duas ocasiões estuda a obra da autora amarantina há 15 anos, através de ensaios académicos, artigos e contributos para livros. "Vou tentar abarcar uma dimensão total da Agustina. Existem já estudos biográficos breves e vários ensaios, mas uma biografia com estas características não. É uma grande responsabilidade", enfatiza.

A pesquisa aturada que tem desenvolvido, centrada tanto na dimensão humana como na romanesca, tem sido pródiga em "surpresas, mas também confirmações", ao reforçar a convicção da condição "intensamente livre" da autora. "Agustina sempre foi uma voz incómoda, porque nunca andou pelo mundo como quem contempla uma paisagem. A coragem é um traço idiossincrático do seu caráter", reforça.

A romancista recorda a forma "contra a corrente" como ela questionou a revolução de Abril ou se demarcou do feminismo. "Nunca seguiu a via mais fácil ou óbvia", acrescenta.

E embora ABL nunca tenha escrito uma biografia no sentido lato do termo - dedicou-se, sim, a escrever várias, de figuras como o Marquês de Pombal, Uriel da Costa ou Maria da Visitação -, o certo que "punha em cena as suas origens nos livros", facilitando até certo ponto a tarefa dos biógrafos. Para pesquisar sobre a influente escritora, Isabel Rio Novo não abdicou de visitar os lugares agustinianos de eleição, predominantemente nortenhos, com o Porto e o Douro em foco.

Esta não vai ser, todavia, a única biografia de Agustina prevista para breve. A Relógio D"Água, que tem vindo a reeditar a obra da romancista, convidou o historiador Rui Ramos para este projeto biográfico, que irá beneficiar da consulta de documentos facultados pelos familiares de Agustina. Também neste caso ainda não é conhecida a data de publicação.

As muitas vidas de Oliveira

Vinte e oito anos depois de ter entrado como figurante no filme "Non ou a vã glória de mandar", Paulo José Miranda voltou a cruzar-se diretamente com a obra de Manoel de Oliveira, ao ter sido convidado para escrever a biografia do cineasta. Um desafio que afirma não ter podido recusar. Pelo realizador e pelo homem. "Há muitas vidas na vida de Oliveira. Chegou aos 70 anos com apenas seis filmes e fez mais 30 filmes desde então", afirma, com entusiasmo.

No livro é possível encontrar tanto encontrar os acontecimentos mais marcantes da vida de Oliveira como dados pouco conhecidos da maioria, como são o facto de ter sido trapezista ou piloto de corridas de automóveis e aviões. É essa vida longe do cinema e das filmagens que o leitor vai poder ler na biografia, em que "as várias vidas da vida do cineasta" são colocadas em evidência. "Até aos 50 anos ele foi vários homens, mas que o ele sempre quis ser foi cineasta. Nunca deixou de pensar cinema, mesmo quando estava impedido de realizar", defende o primeiro vencedor do Prémio José Saramago, que exemplifica com a forma como submetia ano após ano os seus argumentos de filmes ao órgão correspondente do regime, mesmo sabendo de antemão que a candidatura ia ser recusada.

Já com "mais de 200 páginas" escritas, Paulo José Miranda sabe da dificuldade de resumir num livro só uma vida tão imensa e intensa como a do autor de "A caça". Entre o equilíbrio de não ficar preso aos factos, mas também de não faltar à verdade, será possível encontrar a complexidade de "alguém que, embora gostasse muito de pensar, deixava sempre uma grande margem de improviso no seu cinema".

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