Há vida para além dos romances

Há vida para além dos romances

A faceta de cronista de Javier Marías está em evidência no livro "Juro não dizer nunca a verdade", uma reunião dos seus textos publicados na imprensa durante os anos da troika em Espanha.

Um dos equívocos mais frequentes na relação poucas vezes pacífica entre jornalismo e literatura é o de acharmos que os escritores de eleição, por dominarem a arte da narrativa, são por força cronistas exemplares. De bons autores, mas incapazes de partilharem com os leitores uma visão do mundo e das coisas que não começa e acaba nos seus próprios livros, estão os jornais infelizmente cheios.

Não é este, de todo, o caso de Javier Marías, o insuspeito autor madrileno que já nos presenteou ao longo dos anos com obras da estirpe de "O teu rosto amanhã", "Selvagens e sentimentais" ou "Assim começa o mal". A sua colaboração semanal no diário "El Pais" entre os anos de 2013 e 2015 foi transposta para o livro "Juro não dizer nunca a verdade" - título que só por si já é um tratado -, agora publicado em Portugal pela Relógio D"Água.

O risco de desatualização quase imediata que qualquer texto publicado num jornal corre é neste caso sublimado por um pormenor decisivo - o período a que se referem os textos é o dos anos de chumbo impostos pela troika a vários países do sul da Europa, mormente Portugal e Espanha. Por isso, estes artigos ganham a força de um documento que serve de testemunho de uma época em que os cidadãos foram chamados a acudir os desmandos da banca e não só, através de um conjunto de medidas de austeridade, ao arrepio de qualquer noção de justiça, equitatividade ou até decência.

Embora exemplares, esses artigos dificilmente teriam o mesmo efeito nos leitores portugueses se não detetássemos neles uma identificação quase imediata com o sucedido no nosso país na mesma altura. Basta, em muitos casos, substituirmos o nome de Mariano Rajoy pelo de Pedro Passos Coelho para acharmos que o autor espanhol se referia a Portugal quando escreveu uma crónica intitulada "Empobrecimento, embrutecimento".

Não raras vezes virulentos e até desmedidos, o que estes artigos nos mostram é um intelectual inconformado, muito distante da imagem ensimesmada que se cola aos autores de hoje. Em vários destes textos, Marías indigna-se com o que considera ser a imbecilização em curso das sociedades contemporâneas, agravada pelos efeitos das novas tecnologias e redes sociais, que fizeram da simples fruição uma doce e distante memória.