"Não esperava encontrar uma Agustina tão controversa"

"Não esperava encontrar uma Agustina tão controversa"

No dia em que Agustina Bessa-Luís completa 96 anos, o JN falou com Isabel Rio Novo, autora de uma nova biografia da romancista, com lançamento previsto para o início do próximo ano.

Quarenta anos depois do livro de Álvaro Manuel Machado, ainda hoje uma referência, há novas biografias sobre Agustina Bessa-Luís a caminho. Além do livro do historiador Rui Ramos, Isabel Rio Novo está a concluir uma obra que chega às livrarias no início do ano, com a chancela da Contraponto. Um projeto que a professora universitária e ficcionista diz ter sido especial.


Que Agustina(s) vamos encontrar na biografia que está a concluir?

Uma escritora extraordinária e uma pessoa extraordinária. Agustina não andou pelo mundo "como quem contempla uma paisagem", como disse alguém. Quando parti para esta pesquisa, já o sabia, mas nem eu contava encontrar uma pessoa tão controversa, interventiva, insubmissa. Não foi uma criança comum. Não casou nas circunstâncias que se esperariam de uma rapariga de boas famílias. Não foi a típica esposa e mãe burguesas. Não foi a apoiante política esperada. Nunca se afirmou feminista, mas a sua história de vida foi muito mais radical do que a de muitas feministas...


Como procurou contornar a impossibilidade de consultar os documentos que estão na posse da família da autora?


Nesta empreitada, tudo fez sentido. O meu interesse de longa data pela obra de Agustina. O meu percurso académico, com a prática de pesquisa e de escrita de não ficção que ele me trouxe. A minha formação em literatura, mas também em história. Para construir esta biografia, fiz tudo o que qualquer investigador empenhado num trabalho rigoroso faria no meu lugar. Entrevistei dezenas de personalidades, dos mais diversos meios, que privaram ou contactaram com Agustina. Li as cartas dela aos seus amigos e aos seus pares, entre os quais escritores como Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro ou Sophia de Mello Breyner, e artistas como Vieira da Silva. Recolhi mais de uma centena de entrevistas, artigos de imprensa e documentários sobre a escritora. Li e reli a obra completa de Agustina. Passei horas incontadas em bibliotecas, arquivos, casas-museu, repartições de registo... Enfim, percorri os lugares de Agustina, sempre na companhia paciente do Paulo.

A pesquisa foi decerto intensa. Deparou-se -te com alguma surpresa ou curiosidade em particular?


Nem podia ser de outra forma... A correspondência de Agustina foi uma revelação. Foi aí que encontrei a escritora sem defesas, ou, para usar as suas próprias palavras, a que ela era, "sem o conflito das aparências". Sem querer desvendar demasiado, nem ter de escolher rapidamente entre muitas descobertas, diria que toda a história do casamento e todo o início da vida literária de Agustina (relativamente pouco conhecido) estão recheados de revelações surpreendentes. Como disse Agustina, "qualquer vida dá um romance, é só encontrar lá essa força romanesca". No caso desta biografia, quase nem foi preciso invocar as minhas valências de romancista... Possibilidades romanescas, carga poética, tensões, perplexidades, empatias, antipatias, episódios dignos de qualquer livro de Agustina, os leitores vão encontrar tudo isso, com certeza.

A figura do Alberto Luís é muito interessante. Quão importante foi para a obra de Agustina?


Ao partir para esta biografia, não ignorava a envergadura intelectual de Alberto Luís (ainda tive o prazer de o conhecer pessoalmente), nem o seu contributo direto para a criação literária de Agustina, adiantando o trabalho de pesquisa que aborrecia a escritora, decifrando e datilografando os manuscritos, ajudando-a na revisão de provas. Para além deste contributo imprescindível no que designava de "capítulo executivo", a escritora disse muitas vezes em público que o marido ajudara a dar mais solidez à sua cultura e a preencher certas lacunas da sua instrução. Creio realmente que sim. Mas a pesquisa revelou-me algo mais. Agustina não teria sido a escritora que foi se não tivesse tomado em mãos a decisão que conduziu ao seu casamento e se não tivesse tido a sorte de encontrar Alberto Luís.

Agora que a longa empreitada está próxima do fim, quais os sentimentos que a dominam?


"Falar de Agustina, lembrá-la, reconstituir momentos, é uma alegria para o espírito", disse-me uma das minhas entrevistadas, nestes exatos termos, e eu dou-lhe razão. No meio do esforço desta empreitada, entre o cansaço e a responsabilidade, foi sempre isso que que senti, uma alegria para o espírito. Termino este livro com pena de o terminar. Mas, ao mesmo tempo, ansiosa por saber como vão os leitores receber esta inesperada Agustina. E contente por poder voltar aos terrenos da ficção...