Nas asas aladas do sonho e da imaginação

Nas asas aladas do sonho e da imaginação

As quatro incursões de Luis Sepúlveda pelo território da literatura juvenil foram reunidas no volume "Todas as fábulas". Para ler e reler sem limites.

Começou por ser meramente episódica a incursão de Luis Sepúlveda pela escrita para jovens. Os ecos do tremendo êxito editorial que foi a novela "O velho que lia romances de amor" ainda se faziam sentir, em meados da década de 90, quando o autor chileno, então a residir em Hamburgo, surpreendeu os seus leitores com "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar", uma tocante fábula em que a entreajuda animal supera as diferenças e até rivalidades.

Apesar da boa receção da crítica e dos leitores, foi preciso esperar mais de década e meia para que fizesse novo mergulho no imaginário infantil, agora com "História de um gato e de um rato que se tornaram amigos". Nos dois anos seguintes, outros dois livros: "História de um caracol que descobriu a lentidão" e "História de um cão chamado Leal".

São essas quatro fábulas que foram agora reunidas num só volume, com a excelência da tradução de Pedro Tamen. Lidas em conjunto, demonstram a solidez da vertente juvenil da sua obra, o que só acontece porque é evidente que, para Sepúlveda, escrever para crianças não é um mero intervalo enquanto aguarda por outros projetos de maior densidade.

Mais elucidativo ainda: não notamos nas suas histórias quaisquer sinais do tratamento imbecilizante que tantas vezes é devotado ao jovens leitores, a pretexto do seu pequeno tamanho. Com simplicidade mas sem simplismo, procura contribuir para uma educação para a cidadania, através da transmissão de valores como a solidariedade, entreajuda ou humanismo. Tudo, claro, embrulhado numa imaginação que nos faz sentir empatia por gatos, cães, gaivotas e até ratos.

Se na sua criação ficcional mais recente notamos algum desgaste ou mesmo saturação, o mundo animal e o imaginário juvenil permitem-lhe escapar ao desencanto que porventura sentirá ao ver o modo como a injustiça e a desigualdade vão alastrando no mundo.

Ao explicar aos seus leitores (preferencialmente jovens mas não só) que a lentidão pode ser a melhor via para chegarmos a algum lado ou que é importante perseguirmos aquilo em que acreditamos mesmo que daí advenham riscos, como no livro "História de um cão chamado leal", Luis Sepúlveda prossegue a sua máxima de sempre, ainda que por outras vias: a literatura só faz sentido se for um agente da mudança.