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Nos cem anos de Papiniano Carlos, poeta da resistência

Nos cem anos de Papiniano Carlos, poeta da resistência

No centenário do nascimento de Papiniano Carlos, o crítico literário José António Gomes recorda os traços fundamentais da obra e do caráter do autor de "Terra com Sede".

Em 2018 comemoraram-se centenários do nascimento de figuras referenciais da história da Invicta. Por exemplo de Armando Castro (notável investigador de economia política e de história do pensamento económico, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, depois de 74, lutador antifascista e democrata) ou de Papiniano Carlos - que, nascido em Lourenço Marques, atual Maputo, em 1918, participou ativamente na vida político-cultural do Porto e colaborou nos jornais da cidade. Aqui viveu parte da sua vida, antes de se mudar para Pedrouços (Maia), onde faleceu em 2012.

Diversos artigos (na "Seara Nova", na "Diagonal"...), a reedição do livro infantil "A Viagem de Alexandra" (1989) - narrativa em torno da circulação sanguínea -, exposições sobre a vida e a obra (Universidade Popular do Porto, Biblioteca da Maia) e evocações públicas várias sinalizaram os 100 anos do nascimento deste homem bom e generoso, voz singular na literatura portuguesa para a infância, designadamente enquanto autor de um dos seus livros mais populares: o poema narrativo sobre o ciclo da água, "A Menina Gotinha de Água" (1963), que seria gravado em disco por Carmen Dolores e transformado em filme por Alfredo Tropa. Mas vale a pena lembrar ainda, por exemplo, a poética homenagem ao engenho musical e a Beethoven que é "Luisinho e as Andorinhas" (1977), dedicado a Lopes-Graça - que converteria em canção de resistência um poema escrito por Papiniano na sequência do assassinato de Catarina Eufémia, em 1954.

Se nos contos de "Terra com Sede" (1946) e no romance "Rio na Treva" (1975), de cenário rural duriense, não deixa de ser possível descobrir emotivas páginas sobre o Porto, sobre a luta dos seus homens e mulheres contra a pobreza, durante a ditadura salazarista/marcelista, bem como sobre as suas crianças, é sobretudo nas crónicas de "A Rosa Noturna" (1960) que a paisagem física e humana da Invicta surge literariamente recriada.

Registe-se, no entanto, que Papiniano foi sobretudo um apreciado e recitado poeta da resistência - em composições marcantes como "Caminhemos serenos" ou "Os ciclistas", incluídas, hoje, na súmula poética "A Ave sobre a Cidade" (1973). Estreado em 1942, com "Esboço", o poeta logo viu "Estrada Nova", de 1946, apreendido pela polícia, o mesmo acontecendo com outros livros seus. Democrata e lutador de fibra, três vezes foi preso pela PIDE, devido ao seu envolvimento em ações do movimento internacional pela Paz e em atividades oposicionistas, muitas delas da iniciativa do seu partido, o PCP.

Representante de uma segunda geração neorrealista ligada, no Porto, aos fascículos de poesia "Notícias do Bloqueio" (1957-1962), animados por si e por Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, Rebordão Navarro, Daniel Filipe, e ainda às tertúlias dos anos 40-60 no café Rialto, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e noutros espaços, Papiniano Carlos, quer como escritor quer como cidadão resistente, foi um justo merecedor da Medalha de Mérito da Cidade, Grau Ouro, aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal do Porto no ano de 2009.

* Professor Coordenador da Escola Superior de Educação do Porto. Crítico literário.