"O jornalismo está embriagado com a tecnologia"

"O jornalismo está embriagado com a tecnologia"

Crítico severo do jornalismo atual, o investigador francês Dominique Wolton advoga que é preciso "reinventar a liberdade da informação". Para isso, garante, é preciso libertar-se da "tirania do capital e da tecnologia".

O conformismo e a indiferença não têm lugar no discurso sempre afiado do sociólogo francês Dominique Wolton. Aos 71 anos, o diretor de investigação do mítico Centre National de la Recherche Scientifique mantém uma posição profundamente crítica em relação aos ditames do jornalismo atual, que diz estar aprisionado pela tirania do dinheiro e da tecnologia, pelo que é preciso "reinventar a liberdade da informação".

Intitulou a sua conferência em Serralves de "Utopia da informação". A missão de informar com qualidade tornou-se hoje quase uma impossibilidade?
É um facto. Nunca tivemos acesso a tanta informação nem tantos meios tecnológicos ao nosso dispor, mas também nunca houve tantos erros, tantas "fake news" e tanta falta de confiança nos jornalistas. São muitas contradições. A proximidade dos jornalistas do poder político levou a uma perda de confiança por parte do público. Um terceiro fator é o da inteligência crítica dos recetores. Hoje, como todos os cidadãos têm acesso a uma panóplia de informações, o seu sentido crítico tornou-se mais agudo e permitiu-lhes ver que a estandardização da informação é uma realidade. O Mundo inteiro trata a informação da mesma maneira.

O cidadão médio estará hoje mais informado do que há 20 anos?
Tenho dúvidas. O volume da informação não significa qualidade da informação. Nem tão-pouco de variedade da informação. O modelo vigente em todo o Mundo é o ocidental, mais concretamente o europeu. Embora a verdade e a liberdade sejam conceitos universais, a sua aplicação deve variar de acordo com a cultura em causa. Não se pode aplicar o mesmo modelo indiscriminadamente em toda a parte. Esse foi um dos grandes erros cometidos: ignorar as especificidades culturais e religiosas. A verdade é que nos confrontamos com duas tiranias. A primeira é a crença de que a tecnologia liberta. Não é verdade. O jornalismo está embriagado com o progresso tecnológico. A segunda é o dinheiro, que condiciona tudo. O jornalismo está aprisionado por essas duas tiranias.

Acredita nos "cidadãos jornalistas"?
Isso é uma estupidez. Claro que todos podemos e devemos contribuir neste processo, mas sem jamais nos substituirmos aos profissionais desta matéria. Ninguém pede a uma pessoa sem formação que seja professora, por exemplo. Todas as ideias da transparência da informação, da interatividade, do jornalismo do cidadão são uma treta. Os jornalistas venderam a sua alma.

Os jornalistas ainda não assimilaram a ideia de que já não possuem o monopólio da informação?
A tragédia vem da subordinação dos jornalistas à técnica. Passa-se o mesmo com os professores: é uma classe conservadora e corporativa que tarda em reagir às mudanças do mundo. Mas podemos dizer o mesmo dos médicos ou dos políticos...

Os estudantes de jornalismo continuam a reproduzir os antigos dogmas?
Deviam ser muito mais críticos. Eles vão ser esmagados pela nova realidade.

O que deviam aprender nas escolas?
Muita História, análise comparativa dos media, crítica da evolução técnica, valorização do trabalho humano, luta contra o capitalismo, evitar a concentração.

Sente que a qualidade dos estudantes tem decrescido?
Não! É um paradoxo, mas são muito mais educados do que noutros tempos. E muito mais bem formados. A qualidade dos estudantes é boa, mas o conteúdo crítico dos cursos não o é. Continuam a incutir a mesma estupidez aos jornalistas, dizendo-lhes que podem fazer ao mesmo tempo televisão, rádios, jornais e Internet. É um erro. Não se pode pedir ao mesmo jornalista que filme, trate do som, coloque as perguntas e edite o artigo.

É, por isso, um erro falar-se em jornalismo digital.
Claro! O futuro não é o jornalismo digital. Existe apenas o jornalismo.

Há 20 anos, dizia que o impacto da Internet no jornalismo seria inferior ao da rádio e da televisão muitas décadas antes. Acha que tinha razão?
Sim. Todas representam avanços tecnológicos mas a rádio e a TV estavam associadas a uma ideia de democratização das massas. A Internet é um avanço tecnológico superior, mas faz da segmentação a sua principal força. Aposta sobretudo na liberdade individual, ao dar a cada um aquilo que ele quer consumir. Em termos de progresso da sociedade, a Internet contribui para a segmentação social, não para a coesão.

Até que ponto é legítimo acharmos que a sociedade da informação favorece os populismos?
Para já, o próprio termo "sociedade da informação" é um disparate. Não existe nem existirá. A informação é do poder, não é da democracia. É preciso reinventar a liberdade da informação, adaptando-a a novos contextos. Como estudioso desta área há mais de 30 anos, entendo que o papel dos jornalistas como contrapoder continua a ser indispensável. Por isso, é preciso que reflitam primeiro sobre o seu papel, o que não fazem. É uma classe muito corporativa. Faz crítica a toda a gente, mas recusa-se a fazer autocrítica.

Se há ideia que percorre os seus livros é a de que informação e comunicação são distintas. Apesar dos alertas, esses conceitos ainda são confundidos?
A grande loucura cometida nestas últimas décadas foi a desvalorização do conceito de comunicação e a valorização da informação. A comunicação humana passou para segundo plano, em contraste com a comunicação técnica.

Para termos melhor jornalismo não precisamos, em última instância, de melhores cidadãos?
Não. Se o público valoriza os tabloides, a responsabilidade é sua, mas a principal dose de culpas é da oferta. Se o a oferta cultural disponível - de cinema, televisão, rádio ou jornais - for feita unicamente em função da oferta, é claro que teremos a supremacia do tabloide. Estamos ao nível do pão e circo. É responsabilidade dos jornalistas alargar a oferta. É preciso acabar com esta tirania.

ver mais vídeos