O nosso pessimista encartado favorito

O nosso pessimista encartado favorito

As crónicas de Mário de Carvalho publicadas na Imprensa foram finalmente reunidas em livro. "O que eu ouvi na barrica das maçãs" atenua a espera pelo próximo livro de ficção do autor.

Enquanto aguardamos, não sem alguma impaciência, pela próxima safra ficcional de Mário de Carvalho, ler as suas crónicas de imprensa - finalmente reunidas em livro - é bem mais do que um mero paliativo. É, fazendo pontaria à rima, um exercício de superlativo e renovado interesse. Ou não fosse o autor um exemplo flagrante da absoluta recusa da descida do nível de exigência, estejamos perante uma página de um romance ou de uma crónica de um jornal.

Mais de 30 anos passaram sobre alguns dos escritos aqui reunidos (relativos ao período em que escrevia no "Jornal de Letras") e, todavia, é como se o tempo não houvesse passado sobre eles.

Por uma dupla ordem de razões. A primeira, de índole positiva, diz-nos que páginas escritas com tamanho enlevo não amarelecem. Continuam a cativar-nos pela excelência com que foram escritas, pelo riquíssimo imaginário a que aludem, pela sagacidade de relacionar elementos aparentemente diferentes mas afinal bem mais próximos do que pareciam para todos nós.

A segunda razão desse antienvelhecimento das crónicas de "O que eu ouvi na barrica das maçãs" é menos positiva. Não por culpa do autor, mas porque os seus remoques ao país e aos portugueses, dos quais não se exclui, continuam, na sua esmagadora maioria, a fazer pleno sentido nos nossos dias.

"O pequeno país que nós somos tem uma classe média débil; uma intelectualidade exígua; um setor político promíscuo com patos-bravos e lanistas; subelites ténues e volúveis; tradições operárias erodidas; um atraso económico e cultural reconhecido. E heranças oneradas. Somos multo vulneráveis. Não temos reservas nem defesas. Não há nichos, não há abrigos, não há resistências, não há territórios, como outros têm. Nove séculos de conturbada História não dão para aguentar toda esta pressão. As aquisições civilizacionais são de vidro fino. De quebrar num instante". A crónica deu à estampa no "Público" em Setembro de 1996, mas assiná-la-íamos, de cruz, se porventura fosse um abaixo-assinado posto a circular hoje mesmo num dos infindáveis fóruns existentes na rede.

Desencanto, humor, ironia e espanto atravessam estas crónicas que, embora possam numa primeira análise parecer provindas de um pessimista encartado, denotam apenas um sentido realista invulgarmente acentuado. Para mal de todos nós .