"O panorama da literatura portuguesa é muito rico"

"O panorama da literatura portuguesa é muito rico"

Editora da mais importante revista literária mexicana, a "Luvina", Silvia Eugénia Castillero acredita que a participação de Portugal na Feira do Livro de Guadalajara pode ser um importante passo para o aprofundamento das relações culturais entre os dois países.

Há um grande entusiasmo dos leitores mexicanos em saberem mais sobre a literatura portuguesa. Quem o diz é a editora da revista "Luvina", Silvia Eugénia Castillero, que elogia a qualidade da literatura nacional, louvando o seu contributo para o desenvolvimento das vanguardas.

Como e que os neios culturais mexicanos têm encarado a feira do livro dedicado a Portugal?

A literatura portuguesa é praticamente desconhecida na sua maioria no México, exceto os nomes muito famosos como António Lobo Antunes, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Nuno Júdice e alguns outros, que foram traduzidos e publicados em espanhol.
Portanto, a notícia de ter como convidado um país pouco conhecido é muito bem recebida pela comunidade cultural mexicana. Os leitores estão muito curiosos e entusiasmados em lê-los nos livros que estarão disponíveis na Feira Internacional do Livro e ouvir os autores que vêm à feira. Além de poderem ler mais de 100 escritores (narradores, poetas, dramaturgos ensaístas) que a revista literária "Luvina" publicou numa edição especial da literatura lusitana.


Que vantagens é que Portugal poderá retirar desta participação?

Dar a conhecer a sua literatura e cultura, não só para um público mexicano, mas também espanhol, americano e até internacional, porque a Feira Internacional do Livro de Guadalajara é a segunda feira mais importante do mundo e as pessoas vêm de quase todos os países.

Qual a melhor forma de chegar ao coração dos leitores mexicanos?

A melhor maneira é exibir com naturalidade e alto nível artístico o que é a alma portuguesa. O único veículo para tal é a arte, desde que seja genuína, porque só então ela pode afetar o elemento humano daqueles que as leem, veem e ouvem.


Dirigiu o número da revista dedicada à literatura portuguesa. A partir dessa amostra ampla, quais são, em seu entender, os traços dominantes dos autores portugueses?

Acredito que a literatura portuguesa está a passar por uma fase de grande qualidade e vitalidade. Há linhas muito diferentes: por um lado, a intimidade, a relação quase minimalista das pessoas com sua vida quotidiana, detalhada e concreta. Por outro lado, há a aventura, deixar os limites do território lusitano e viajar pelo mundo. Outra questão é a dureza da vida atual, fora dos muros, a questão dos migrantes, a da guerra e, nesses casos, o tom é cru e pessimista. E às vezes roça a loucura, aquela perturbação do atual mundo vazio. Há sempre o amor como eixo, e a cidade com seu outro cenário que é o campo.
Portugal desenvolveu uma importante vanguarda que marcou um novo caminho nas artes. Encontro então na maioria dos textos uma sugestão do experimental, a ousadia para a dissolução das fronteiras entre os géneros do ponto de vista formal e a ousadia de encontrar novas formas de expressão com a palavra. Encontramos também uma poesia visual que tem toda uma tradição e que coincide com uma herança pictórica e um trabalho atual de arte plástica de muito boa qualidade e com propostas sólidas. Vejo um panorama muito rico e amplo nas letras lusitanas. E um ótimo manuseio de formas literárias.

ver mais vídeos