O poder redentor de uma boa história

O poder redentor de uma boa história

Um conto breve de Joel Neto sobre o poder das narrativas tradicionais. Ainda e sempre insubstituível, apesar dos experimentalismos literários e das ilusões tecnológicas.

São 60 páginas que se leem de um fôlego só. Até poderiam ser bem menos se não fosse a discutível opção do duplo espaçamento e do tamanho generoso do "lettering" escolhido. Com o título "Só tinha saudades de contar uma história", é uma narrativa que Joel Neto há muito tinha alinhavado, mas que só agora concluiu e publicou.

Em boa hora, acrescente-se. Sem colocar em causa o papel que o experimentalismo ou as estruturas mais complexas desempenham na literatura e na sua evolução, as histórias despojadas de artifícios são insubstituíveis. É provável que até estejam fora da moda - quanto mais não seja porque é muito mais cómodo para um escritor assumir-se como vanguardista do que classicista. Mesmo que, curiosamente, a história da literatura seja pródiga em exemplos de como o que era novo e definitivo acabou por apresentar muito mais rapidamente sinais de envelhecimento e de desgaste do que as narrativas tradicionais.

Há também, por outro lado, muito de falacioso na crença de que as histórias simples exigem necessiariamente menos esforço para o autor do que as já faladas estruturas complexas. A síntese de uma história curta obriga a um trabalho muitas vezes redobrado, tanto sobre a linguagem como sobre os próprios contornos da narrativa. Algo de que os romances ditos experimentalistas estão desobrigados, porque vivem da acumulação e não da escolha.

É em torno de Norberto, um polícia cujos dotes de contador de histórias vão mudar a sua vida, que se constrói a totalidade do livro. Escutá-lo na sua improvável verve omeçou por ser o privilégio de um punhado de rapazes. Diariamente, no final de mais de um turno, presenteava o pequeno grupo com histórias de todas as proveniências e géneros.

A figura musculada, aliada "a uma voz grave, cavernosa, de sob cujas reverberações se erguia a doçura de um sotaque tropical", não tardou a atrair mais gente. Os seguidores vieram de toda a parte, fascinados com a sabedoria e tranquilidade que emanava do policial africano. Por deslumbramento ou por repetição, o encanto vai-se quebrando, para o que contribui muito o facto de, ao contrário do que acontecia no início, Norberto começar a pedir dinheiro a quem o escutava ou pedia um conselho.

A traição dos ideais que o nortearam no início vai contribuir rm muito para o final, mas não se infira daqui uma tentação moral ou a convicção de que tudo o que é puro converge à força para o plano oposto. Afinal, uma história tanto pode ser a realidade contada por outras palavras como uma superação desse mesmo quadro real. Basta que nos deixemos conduzir por ela.

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