O que se esconde no íntimo de cada um

O que se esconde no íntimo de cada um

Teolinda Gersão explora o lado único e intransmissível das chamadas vidas comuns no novo livro, "Atrás da porta e outras histórias".

Logo na epígrafe, Teolinda Gersão adverte-nos para o que se segue: "Se um dia te encontrares numa caverna ou túnel completamente escuro e sufocante (...) resiste agarrando-te às paredes, escavando em volta, rastejando na lama, nadando em poços ou correntes de água que subitamente te arrastem, a ponto de te sentires morrer. Resiste, apesar de tudo, e não cedas. Contra todas as expectativas, há uma possibilidade, ainda que remota, de conseguires sair escuridão, mesmo que, fora de ti, não haja nenhuma luz".

É precisamente a eterna luta do ser humano contra as adversidades, partam elas do exterior ou do próprio íntimo, o que encontramos nos 14 contos de "Atrás da porta e outras histórias". Em todos eles, por muito distinto que seja o seu desenvolvimento, encontramos o ponto de partida comum da atração pelo quotidiano.

Seja um casal de idosos do meio rural que visita o filho na grande cidade, um homem cético que consulta o psiquiatra para esclarecer de uma vez por todas a sua sanidade mental ou a iniciação sexual de um adolescente, há nestas histórias uma ligação direta ao real que nos cria um sentimento imediato de identificação. São personagens de carne e osso, arquétipos de uma ancestral luta pela sobrevivência que é indissociável da própria condição humana.

Por muito escuro que seja o lugar em que se encontram, por improvável que seja a sua salvação, a esperança na conservação da réstia de luz continua a dominar os seus passos. Mesmo que esse brilho tenha que vir do seu íntimo.

Se o regresso de Teolinda Gersão ao território das narraitvas curtas é uma notícia que saudamos sempre com vigor, mais evidente se torna esse aceno quando constatamos a recusa da autora no facilitismo ou na solução mais óbvia.

Ainda que sem o equilíbrio do livro anterior, "Prantos, amores e outros desvarios" - um dos grandes livros portugueses de 2016, justamente galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco -, a sua mais recente safra contística é exemplar no modo como Teolinda Gersão consegue dosear a contenção narrativa com a exploração das infindáveis possibilidades que a aventura existencial concede. Como se procurasse provar que nem sempre a luz mais intensa provém do fogo de artifício.