Para além do Bem, para além do Mal

Para além do Bem, para além do Mal

A amoralidade é o fio condutor do mais recente livro de Gonçalo M. Tavares. Segundo volume da série "Mitologias", "Cinco Meninos, Cinco Ratos" sucede a "A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado".

A crueldade que povoa o segundo volume da série "Mitologias", "Cinco Meninos, Cinco Ratos", impressiona qualquer leitor. Não necessariamente pelo requinte de perversidade (embora esteja bem presente) com que vamos sendo confrontados, mas pela abolição do espanto que tais atos provocam.

Um rapaz com os olhos vendados dispara indiscriminadamente sobre um grupo de convidados na sua festa de aniversário sem que essa conduta seja condenada. Um padre que tenta por todos os meios converter os estranhos à sua religião é condenado à forca perante a complacência geral. Os exemplos sucedem-se, acentuando o caráter concentracionário de um universo situado para lá das normas que nos habituámos a associar ao Bem ou ao Mal.

À semelhança do anterior "A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado", mas de um modo ainda mais intenso, encontramo-nos num cenário pós-apocalíptico em que a lei do mais forte se sobrepõe a qualquer outra. Criaturas errantes (como o Gigante, o Homem-com-a-Boca-Aberta) semeiam um medo ao qual todos os outros procuram resistir como podem. Sem a consciência dos seus atos, limitam-se a seguir os seus intentos, expressando a sua animalidade mais básica através da violência sobre os outros.

Em contraponto com o caos dominante, cinco jovens irmãos surgem-nos como aparentes vítimas indefesas de um mundo distópico. Não sabem para onde vão. Apenas sabemos que estão em fuga permanente. Nessa jornada contra o medo cruzam-se a toda a hora com figuras tocadas pelo Mal, conseguindo subverter a sua perversidade através da sua candura.

Igual sorte não têm muitos habitantes neste pouco admirável mundo novo. Na maioria dos casos, são vítimas da ferocidade das regras. Ou enlouquecem quando são expostos levemente aos seus efeitos, como acontece a todos os que embarcam num comboio veloz.

Toda esta indústria do Mal, em que cada ser (homem ou animal) é uma máquina de guerra impiedosa, não produz consequências. O homem decapitado numa linha de comboio aparece umas páginas adiante noutra situação não menos terrível.

Esta eliminação da morte não tem um efeito redentor. Antes surge como a perpetuação de um pesadelo a que todos tentam escapar em vão.
A única exceção neste macabro jogo da cabra cega é Tatiana, a mais jovem dos cinco irmãos, que está constantemente a aparecer e a desaparecer ao longo do livro. Se todos os outros fogem em nome da sobrevivência, para escapar ao horror que os rodeia, ela fá-lo em nome da pura diversão. Protegida pelos muros altos da infância, não sucumbe ao medo como os restantes. Bem pelo contrário. É capaz de desarmar uma figura hedionda com a sua graciosidade, uma espécie de detonador pacífico do Mal.

A sua força maior é o espanto, exceção à regra num mundo onde ninguém tem esse sobressalto interior que nos separa da barbárie.

ver mais vídeos