"Para criarmos uma causa temos que nos colocar em causa"

"Para criarmos uma causa temos que nos colocar em causa"

A. Dasilva O., o poeta, editor e divulgador que ajudou a revolucionar a cena cultural no Porto há 40 anos, continua tão ativo como sempre. "É a preguiça que me move", atira, com o sarcasmo de sempre.

Valter Hugo Mãe chamou-lhe em tempos "o guru do underground português". Percebe-se porquê: à conta da agitação cultural sem freios que António da Silva Oliveira ajudou a promover, o Porto deixou de ser, a partir do final dos anos 70, a cidade fechada e cinzenta na qual, como dizia Manuel António Pina, "para se ser jovem é preciso ser velho primeiro".

De súbito, passaram a circular de mão em mão, a preços baixos, edições assumidamente artesanais (vulgo fanzines) de música, literatura, cinema e filosofia; performances poéticas inesperadas deflagravam no meio da rua para espanto dos mais desatentos; programas de rádio subvertiam as regras, derramando provocação, sátira e confronto.

O grande mentor de todo este dinamismo era António da Silva Oliveira, poeta, editor e agente (contra)cultural que aos bons costumes nunca quis dizer nada. "O meu projeto sempre foi mais interpessoal do que individual. O gozo de editar e divulgar sempre foi tão grande como o de criar, porque a contracultura foi sempre contestar a impossibilidade de as causas terem o seu efeito. Não nos esqueçamos que, para criarmos uma causa, temos primeiro que nos saber colocar em causa", reforça o cofundador da Rádio Caos e editor das míticas "Conferências do Inferno".

Nos últimos 40 anos, A. Dasilva O., como é conhecido, acumulou projetos. Como a revista "Última Geração", as Edições N. e Edições Mortas e, bem mais recentemente, as publicações "Piolho" e "Estúpida".

Ignorado mas influente

Desafios quase ilimitados que se devem ao ímpeto criador, mas à força das necessidades também. A falência de várias distribuidoras e livrarias deixou-lhe encargos de que ainda hoje sente o peso. "Ficaram-me com os livros e com o dinheiro, e ainda fiquei a dever à Segurança Social. O Estado achou por bem que lhe devia dinheiro, apesar de ter descontado durante 25 anos", lamenta Oliveira, forçado a sobreviver, aos 60 anos, com o rendimento mínimo e com as parcas verbas resultantes da venda de revistas.

Ignorado pela academia, não deixa de ser um nome de culto. Basta dizer que a primeira edição do seu livro "Correspondência amorosa entre Salazar e Marilyn Monroe" é um objeto de disputa dos colecionadores e alfarrabistas mais atentos ou ainda que tem seguidores em paragens distantes, da Itália ao Brasil.

Além disso, no ressurgimento, ocorrido nos últimos anos, da atividade poética ligada aos circuitos mais subterrâneos é impossível não detetar, no mínimo, alguma influência sua. Com modéstia, o autor de "Um poema podre" recusa qualquer quinhão e só lamenta o estado de alienação crescente das pessoas, embora ressalve que "a poesia sempre foi das minorias".

Com 40 anos somados de atividade cultural ininterrupta - "não sei fazer mais nada", graceja -, A. Dasilva O. olha com reservas para o panorama português. No plano literário lamenta que "a maior parte dos autores escrevam apenas para os e ignorantes": "Esquecem-se é que os ignorantes não leem. Até compram os livros, mas não os leem".

Já enquanto editor, defende que "contra a selvajaria económica deve opor-se a selvajaria da cultura e da irreverência". Às principais editoras lança o ónus de "terem feito o favor de nivelar tudo por baixo". "Mesmo a nova geração é um coletivo de material inútil", acusa.

FRASES

"Hoje as pessoas já não andam de pé. Andam sentadas. Nos carros, no metro..."

"A poesia acontece quando há o cruzar de duas retas: a surpresa da criação e a do outro que a lê"

"A função da poesia é criar litígios"

"Reescrever é fundamental. É preciso limpar o cu ao poema"

"É preciso desprezar o próprio talento. Fazer com que não se torne unânime"

"Tenho textos tão bons que não quero partilhá-los com mais ninguém. Recuso-me a publicá-los"

"Não havendo nervo quando se escreve não há literatura"

"Os que atiram a verdade à cara do outro como se fosse excremento são rotulados de dementes"

"O tempo é um grande criador de desilusão"