Procurar a paz fora da zona de conforto

Procurar a paz fora da zona de conforto

Para mitigar a nossa espera pelo seu próximo romance, Jonathan Franzen publicou uma reunião de ensaios. "O fim do fim da Terra" lê-se com deleite, embora só com boa vontade possamos dizer que se trata mesmo de ensaios...

Há algo de tocante no gesto do romancista aclamado que, em nome das suas crenças, sai da sua zona de conforto e viaja pelo Mundo, enfrentando contextos sociais e políticos para os quais não será, à primeira vista, o mais apetrechado dos seres.

Para Jonathan Franzen, muito provavelmente o próximo autor norte-americano a ganhar o Prémio Nobel da Literatura (caso o mesmo exista dentro de uma década...), os ensaios são um modo de o autor confrontar-se consigo mesmo fora da "armadura" do romance, no qual até "a ficção mais puramente autobiográfica exige pura invenção".

Acontece que o autor de "Purity" assume logo na introdução que o ensaio e o jornalismo - a não-ficção, em suma - têm sido perigosamente contaminados pela ditadura do Eu. Até mesmo a literatura mais recente, com Karl Ove Knausgaard, se deixou influenciar pela tendência, levando "a um novo patamar o método do testemunho introvertido na primeira pessoa".

Todos esses argumentos, perfeitamente válidos, aliás, fariam pleno sentido se o conjunto de textos de índole diversa reunidos em "O fim do fim da Terra", a que deu o título de ensaios, exibissem as características opostas às que apontou a esse género. Ou seja, a subjetividade e excessivo ênfase no ponto de vista pessoal.

Ora, o que encontramos nestas peças são as marcas atrás enunciadas, pelo que se desconhece se os comentários de reprovação do autor foram um mero artifício literário, uma ironia em estado puro ou uma simples contradição.
Todavia, quer sejam lidos como ensaios, exercícios de ficção ou micro-histórias, estes textos são prodigiosas manifestações do fulgor narrativo de Franzen, bem articulado e ao mesmo tempo cristalino.

O amor pelas aves é uma das evidências do livro. A sua preocupação extrema pela preservação de várias espécies ameaçadas de extinção leva-o até cenários distantes (da Albânia a África, passando pela Antártida) com o objetivo de alertar os leitores para as atrocidades que têm vindo a ser cometidas.
Também há textos assumidamente literários . O mais curto do livro, com apenas uma página, é também o mais desarmante. Em "Dez regras para o romancista", defende que "o leitor é um amigo, não um adversário" ou que é preciso "amar antes de

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