Seres imaginários de carne e osso

Seres imaginários de carne e osso

Mais do que um tributo ao universo da banda desenhada, "Memórias Secretas", o mais recente romance de Mário Cláudio, é uma revisitação dos territórios da infância.

Pertence à ordem do improvável conseguirmos encontrar um escritor que, ao cabo de uma obra longa e legitimada pelos leitores, crítica ou academia, continue a encarar a escrita como uma atividade de risco. Em quase todos os casos, seja em nome das expectativas dos seguidores ou por motivações próprias, a cadência e o próprio teor da publicação acabam por tornar-se previsíveis, como uma espécie de desígnio interior a que nem o autor consegue pôr cobro.

Nesse longo rol de exemplos não encontraremos seguramente o nome de Mário Cláudio. Se, ao longo dos anos, sempre detetámos nos seus livros uma atração pela multiplicidade de géneros (além do romance e do conto, já publicou poesia, teatro, crónicas ou livros para crianças) que sempre o afastou de forma mais ou menos evidente dessa previsibilidade reinante, é porventura na sua criação recente que notamos um enfoque maior nessa dimensão inusitada, no que pode ser interpretado como uma libertação plena dos espartilhos e constrangimentos.

Poucos meses volvidos após a publicação de "Alma vagueante", um conjunto de crónicas nas quais o autor recorda o convívio com alguns dos maiores vultos das artes e das letras portuguesas do século XX, eis que Mário Cláudio regressa à ficção com "Memórias secretas".
Um volume desconcertante, não pelo afastamento em relação à sua bem marcada identidade literária, mas pelo inesperado tributo ao imaginário da infância através da evocação de três figuras oriundas da banda desenhada com um grau de notoriedade bem distinto: Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente.

Mantendo bem vincadas as marcas da sua escrita (como a pulsão biográfica, o gosto pela criação de atmosferas e a eficaz estruturação narrativa), Mário Cláudio transforma estas inesperadas incursões biográficas em renovados exemplos do seu engenho literário, ao criar universos imaginários autónomos para figuras existentes.

O cume é atingido logo no primeiro dos três relatos, em que a figura de Corto Maltese é plasmada de um modo tão verosímil - da errância geográfica ao mistério que sempre lhe esteve subjacente - que o próprio Hugo Pratt não desdenharia decerto ser o seu autor.
Mistura de biografia, autobiografia, romance, crónica e diário, "Memórias secretas" mostra-nos a inquietude de um autor em eterna demanda.