"Só os idiotas acreditam na posteridade"

"Só os idiotas acreditam na posteridade"

Com os anos aprendeu "a olhar para o presente". A única maneira, garante, de "escapar ao cativeiro do passado e à ameaça do futuro". Aos 77 anos, Mário Cláudio encara a escrita como um modo de "manter-se no tempo e estar com o tempo". "Tríptico da salvação" chega às livrarias numa altura em que assinala 50 anos de vida literária.

Acompanhou de longe a saída do seu primeiro livro, em 1969: estava na guerra na Guiné. Esse distanciamento diluiu o impacto da estreia?

Estava previsto que viesse a Portugal acompanhar a saída, mas isso acabou por não acontecer. Por isso, foi o meu pai que acompanhou o trabalho de impressão, ajudando-me na revisão e nas provas. Recebi alguns exemplares pelo correio e saíram algumas referências, poucas, na imprensa. E foi tudo.

Era muito inseguro nesse tempo?

Era, era. Ainda hoje sou, embora as pessoas possam pensar o contrário. Tinha consciência da minha fragilidade. Era o primeiro livro e estava a entrar num meio que só conhecia de longe. Já tinha ideia de como era a vida literária portuguesa, muito marcada por fatores de ordem política.

O meio era mais fechado do que é hoje?

De certa forma. Era mais aberto em termos corporativos, com uma dose menor de crispação. Havia uma solidariedade maior devido ao inimigo comum que era o regime. Depois, cada um começou a adotar a sua própria linguagem, o que tornou a vida literária mais problemática. Era mais difícil ser escritor, mas, assim que se era aceite pela corporação, o clima era muito mais saudável.

Sente que, há 50 anos, a afirmação de um autor não estava dependente de tantos fatores externos? Hoje, os dotes de comunicação são muito importantes.

Na altura, os mecanismos de promoção eram muito menores e os autores não tinham necessidade de se colocarem em bicos de pé. Ir ao Facebook partilhar tudo, comparar os gostos... Hoje é tudo mais desenfreado. Há muito mais gente a escrever...

O número de leitores é que não tem aumentado.

Pois não. Tem diminuído. A não ser para os autores. Ainda há pouco vi um desses com sete mil gostos. Não sei como é possível. Nada tenho contra os autores pimbas. Há um lugar para a literatura pimba. Sem ela, como saberíamos o que não é pimba?

Já era ficcionista nesse tempo, apesar de o seu primeiro livro ser de poesia?

Não tinha a mínima noção disso. O trabalho de ficção nasceu na Guiné. Foi lá que escrevi "Um verão assim", esse sim um livro muito bem acolhido, com textos na badana do Jorge de Sena e do Eugénio de Andrade. Não me deu grande visibilidade, porque era um texto muito experimental. Esta só aconteceu muito mais tarde, com "Amadeo".

O que acicatou a escrita do seu novo livro, "Tríptico da salvação"?

A idade. Tenho passado grande parte da vida a olhar para o passado. A partir de "Amadeo", tracei viagens pelo universo de vários autores, das artes plásticas à música ou literatura. De repente percebi que, quando se chega à minha idade, olhar para trás é o mais simples. Olhar para frente é mais custoso, porque não sabemos se havemos de lá chegar.

É possível olhar para trás sem sermos nostálgicos?

O importante é olhar para o presente. Neste momento, o que me interessa é viver as minhas paixões, como a pintura, mas no presente. Para isso tenho que aderir a uma dimensão metafísica. Este é um livro que não corre para a frente nem para trás. Pretende subir. Só conseguimos escapar ao cativeiro do passado e à ameaça do futuro se vivermos o presente.

No seu mais recente livro, "Trípico da salvação", voltamos a encontrar em planos opostos a maturidade e a juventude. É uma relação destinada a ser conflituosa?

Esse diálogo tem-me interessado muito e tem estado presente em muitos dos meus livros desde "Gémeos".

Quem se alimenta mais de quem?

Há uma rejeição mútua. Os jovens rejeitam os velhos por acharem que estes não têm nada para dizer, enquanto os velhos acreditam que os novos só dizem disparates. Nenhum tem razão. Ao agirem desta maneira, os velhos ficam mais velhos e os novos não chegam a crescer.

Vê-se como um ficcionista com tentação biográfica ou um biógrafo com tentação ficcionista?

Tudo é ficção. Não consigo ler a vida, nem a minha nem a dos outros, sem ser num plano em que a fantasia intervém com muita força.

Mas todas as vidas são suscetíveis de dar origem a uma biografia arrebatadora?

Tenho a certeza absoluta que sim. Veja-se a literatura russa do século XX, que se alimentou tanto disso. Gogol escreveu a vida toda sobre personagens sem grandes sobressaltos. Mesmo nessas vidas é possível ao escritor criar acontecimentos num plano interior. O que vivemos não é só o que acontece. É também o que não acontece.

A morte de Agustina é demasiado recente para que a possamos ignorar. Embora a notícia fosse infelizmente esperada há muito, como a recebeu?

Há muito tempo que estava afastado de Agustina, por opção própria, mas também por sentir que a sua filha, Mónica Baldaque, de quem sou amigo há muitos anos, preferia que não a visitassem. Preferi guardar a imagem de uma Agustina viva, ativa e, mais do que lúcida, hiperlúcida. Com a sua morte, assistimos ao habitual espalhafato fúnebre, com explosões de má-criação e estupidez, mas também a algo fatal em Portugal: a discussão se Agustina foi ou não a maior escritora do século. É completamente ridículo. Temos que viver sempre nessa dicotomia.

E o que lhe pareceram os elogios fúnebres de altas figuras do Estado que pouco fizeram para divulgar internacionalmente a sua obra?

Choca-me, claro. Soa a oportunismo. É por isso que não fui às cerimónias fúnebres nem à missa do sétima dia. Preferi recordá-la em casa e ler uma ou outra passagem dos seus livros. Estes salamaleques são sempre suspeitos.

Acredita que há mortes que deixam um vazio impossível de preencher?

Não há perdas irreparáveis. Apenas momentâneas. Ninguém pode garantir que não haja, neste momento, um génio português a escrever numa mansarda que só será revelado daqui a 10 ou 20 anos.

Uma amizade tão plena como a que vos unia - não isenta de alguma truculência e amuos - é cada vez mais rara hoje no meio literário?

Acredito que sim. Não foi a única que tive. Também tive uma relação de forte proximidade com o Vasco Graça Moura desde a adolescência. Tem tudo que ver com a forma como as pessoas são educadas. Quem se deixa vencer pela imolação e pelo espírito de concorrência desenfreada que se reflete nas redes sociais terá sempre mais dificuldade em construir relações de amizade sólidas. Há páginas de autores nas redes sociais que se transformaram em verdadeiros quiosques de autopromoção da sua obra.

Por que nunca avançou com um projeto biográfico sobre Agustina?

Só escrevi uma biografia, a de Tiago Veiga, em que adotei critérios científicos que não vejo noutras. A biografia de Agustina ainda não apareceu. Vai aparecer agora, com o Rui Ramos e é o resultado de uma investigação de muitos anos. Uma biografia não se faz de palpites. Isso pode dar um romance, uma crónica ou um retrato, mas não é uma biografia. Só num país como Portugal se chama biografia a qualquer coisa que saia de alguém a falar de outro.

Nunca como hoje os livros tiveram que disputar a sua atenção com tantas outras formas de lazer ou entretenimento. A literatura está a caminhar para a irrelevância?

A literatura tende para o autoapagamento. As pessoas estão cada vez mais atentas ao tema do que ao autor. O mesmo se passa no cinema. Quem compra um livro de literatura amor, o principal género da enxurrada pimba, fá-lo pelo tema. Estes autores autoapagam-se. Ninguém se lembra deles ao fim de um pouco, como se passa com os livros de culinária.

Sente que o leitor de hoje é menos exigente?

A escrita é sempre o reflexo do que se lê. E como me chegam às mãos muitos textos de jovens que me pedem opinião, constato que há muito rebotalho, ou seja, desperdício que se tenta impingir como literatura. O mesmo se passa noutras artes. É preciso ter escola. Não há cursos de escrita criativa capazes de formarem autores.

Não é apenas um escritor de gabinete, como Miguel Torga ou António Lobo Antunes. Esse contacto com as pessoas de que não abdica deve-se também a questões literárias, ou seja, serve para compreender melhor a natureza humana e explicá-la nos livros?

Não penso nisso. Gosto de conversar e estar com as pessoas, apesar de não gostar muito de estar em público. Isso tem um preço: seguramente, não há ninguém que tenha escrito tantos prefácios como eu. Foram centenas

A abundância da sua produção recente é notória. Escrever ajuda a iludir a passagem do tempo?

É uma maneira de manter-me no tempo. De estar com o tempo. Enquanto tiver a escrita, enfrento-me através daquilo que escrevo. A partir de uma certa idade vamos menos ao espelho. É fatal. A escrita é o substituto do espelho.

Mas voltando a esse ritmo veloz, diria que hoje a escrita flui com maior facilidade?

Hoje sei o que quero escrever. E como fazê-lo. Mas também não quero cristalizar num modelo. Quando me dizem que hoje estou a escrever muito melhor do que há 15 anos fico feliz. Já tinha muito mais de 65 anos quando escrevi "Astronomia", a minha autobiografia ficcionada, considerada por muitos o meu melhor livro.

É um homem de convicções espirituais fortes. Mais do que a esperança, a fé é a última coisa a morrer?

No meu caso não é fé. É certeza. Se fosse apenas fé vivia amargurado. Ter uma raiz espiritual funda é uma dádiva e eu assumo isso.

Tem ilusões quanto à posteridade do que publica?

Aí a minha certeza é ao contrário: tenho a certeza de que não vai durar. Só se fosse um perfeito idiota é que poderia ter certezas sobre a posteridade. Não me tenho nessa conta. O que nos chegou da literatura de outros tempos? O mínimo. É natural que daqui a dois mil anos ninguém sabe quem foi Eça. As pessoas vivem muito preocupadas com a posteridade quando nem certezas deviam ter sobre o dia de amanhã. Um dos grandes ensinamentos da idade é vivermos no presente. E de uma forma espiritual, a olhar para cima.