Tudo o que cabe num poema

Tudo o que cabe num poema

"Nómada", novo livro de João Luís Barreto Guimarães, confirma a excelência da sua obra poética.

A realidade como matéria-prima. Ponto de partida e de chegada. Meio, princípio e fim de tudo. Eis o que move cada vez mais João Luís Barreto Guimarães, autor que parece ter apreendido a lição do conhecido poema "Não há vagas", de Ferreira Gullar, ainda que virando-o do avesso: "O preço do feijão não cabe no poema/ O preço do arroz não cabe no poema/ não cabem no poema o gás/a luz/ o telefone/a sonegação do leite/ da carne/ do açúcar/do pão".

Em "Nómada", o poeta que "divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade" afirma-se pelo contrário. Os 42 poemas que integram o seu novo livro abarcam tudo quanto lhes é dado ver, num plano mais imediato e sensitivo, mas também a dúvida, a reflexão e o silêncio.
Neles, cabem, afinal, "a pastilha elástica colada à sola do sapato", o odor inconfundível da "batata frita", "as águas altas do Sena" e "os corvos em Birkenau". Mas, acima de tudo, sobeja a convicção de que "o conhecimento de tudo (quando bem acomodado) cabe no espaço de uma caixa craniana".

Nesta busca pela "verdade que existe nas coisas comuns", Barreto Guimarães enceta uma demanda que, embora pareça fixar-se na realidade circundante, é sobretudo interior. E se a tentativa de compreensão da vida através dos poemas encerra, à primeira vista, doses maciças de presunção ou de ingenuidade, os escritos do autor de "Mediterrâneo" reforçam a crença da importância iniludível da poesia no ato da interrogação, primeiro passo rumo ao conhecimento.

"Se ao fim do dia perguntas para/onde foi o dia inteiro/ é a hora de partir (não ficar preso ao naufrágio/ esperando um milagre na praia/ chorando os barcos/ pelo nome), escreve em "Falsa vida".

Não é meramente individual esse esforço. O leitor é cúmplice deste diálogo imaginário em que o poeta se debruça com um olhar inaugural perante a realidade: "Escolho o / mundo / com as pálpebras (abrindo e fechando os olhos) / escolher é excluir / excluir é entender".
O tom confidente com que Barreto Guimarães explana o seu devir poético, reforçado pelo uso hábil dos parêntesis, acentua essa relação. Todavia,´é na dimensão de experiência individual com leitura universal que a tal cumplicidade é criada riada. Porque "fazer poemas é como ir / roubar / maçãs selvagens / vais à espera de doçura mas / surpreende-te a acidez".

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