Um divertimento para ser levado a sério

Um divertimento para ser levado a sério

Satírico e mordaz, "O fiel defunto" é o novo romance de Germano Almeida, o escritor cabo-verdiano recentemente galardoado com o Prémio Camões. A "Companhia dos Livros" já o leu e aprova-o.


Há duas formas preferenciais de lermos "O fiel defunto", primeiro romance que Germano Almeida publica após ter sido contemplado, em maio passado, com o Prémio Camões.

A primeira, mais livre, consiste em determo-nos apenas na trama e na desenvoltura narrativa. Deixarmo-nos cativar livremente pela fluidez da escrita do autor cabo-verdiano, contador de histórias nato que enleia o leitor com eficácia.

Não menos estimulante é a segunda alternativa, embora talvez mais cínica, que nos leva a tentar encontrar amiúde equivalentes de carne e osso às personagens criadas pelo autor de "O testamento do Senhor Nepomuceno". Sejam elas reais ou não.

Quer a nossa escolha recaia sobre uma ou outra opção, o essencial mantém-se: "O fiel de-funto" é uma elegante sátira, que não exclui a paródia, a ironia e sobretudo a auto-ironia, em que as instituições sociais e literárias são escrutinadas com especial argúcia por Germano
Almeida.

No centro de tudo está Miguel Lopes Macieira. Ele é o escritor mais querido de Cabo Verde. Lido, traduzido e sobretudo muito estimado pela comunidade. Um papel que, ironia das ironias, não deve andar muito longe do desempenhado pelo próprio Germano na sua terra natal, por força dos prémios, comendas e traduções que foi alcançando ao longo dos anos.

A veneração que rodeia o autor (Lopes Macieira e não Germano, bem entendido) adquire contornos lendários quando, em plena sessão de lançamento do novo livro, o seu maior amigo, Edmundo Rosário, lhe desfere dois tiros no peito, alegadamente por ciúmes de que a sua esposa o estaria traindo.

Matilde, antiga aluna de Edmundo, é a tentação em pessoa. Aos inegáveis atributos físicos junta ainda uma agudeza espiritual que a torna ainda mais atrativa aos olhos do celebrado autor. Pelo meio há ainda Mariza (ex) mulher do defunto que regressa do "exílio" norte-americano a que se havia auto-imposto para vir tratar da futura gestão literária do esposo, o que a transforma "numa reedição da Pilar del Rio" em versão do Mindelo.
Apesar da tragédia, o tom é tudo menos pesado. Por obra e graça do estilo característico de Germano Almeida. A veia cómica não retira profundidade aos comentários mordazes; antes lhes acentua as fragilidades e insignificâncias próprias dos seres humanos.

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