Um festim de humor para degustação farta

Um festim de humor para degustação farta

Ricardo Araújo Pereira voltou a reunir em livro os textos que criou para a sua rubrica de rádio "Mixórdia de temáticas". Uma amostra concentrada das obsessões (e embirrações...) de RAP.

Já passaram anos suficientes sobre a sua estreia para que possamos constatar o óbvio: Ricardo Araújo Pereira (RAP) foi a melhor notícia que o humor nacional recebeu em várias décadas.

Finalmente a solo depois de ter iniciado atividade enquanto argumentista nas Produções Fictícias e, posteriormente, membro do coletivo Gato Fedorento, RAP tem sabido manter a marca inextricável do seu humor (capaz de aglutinar influências que vão dos irmãos Marx aos Monty Python) sem ficar refém da imensa popularidade que logrou granjear.

E se é verdade que os seus dotes de representação lhe permitem apresentar sempre "as mesmas duas ou três personagens", como diz à saciedade, a verdade é que a multiplicidade de registos e situações por si criadas dilui o eventual défice performativo que poderá ter.

A terceira recolha de textos da sua celebrada rubrica radiofónica "Mixórdia de temáticas" parece confirmar isso mesmo. Na "série Lobato", voltamos a encontrar fecundos exemplos da rara capacidade de RAP em inspirar-se na realidade e nas suas incontáveis fragilidades para criar fantasiosas ou burlescas reflexões sobre a natureza humana.

O absurdo é, pois, o seu território de eleição. O espaço no qual nenhuma possibilidade deixa de ser explorada em nome do bom senso, esse inimigo mortal de qualquer forma de humor que se preze.

Seja a história de Firmino Lobato, o intrépido Jedi de Fafe que procura impedir por todos os meios o furto de galinhas, ou de Micael Lobato, o pescador que caça sereias de forma inadvertida, há uma procura do ridículo da existência que merece ser louvado.

O que torna, contudo, o humor de RAP ainda mais pertinente é que, para lá desse aparente elogio ao non-sense, oculta-se muitas vezes uma crítica social ou política certeira. O racionamento a que temos assistido motivou decerto o "sketch" "Tentem adoecer menos", em que um fictício responsável do Ministério da Saúde procura desvalorizar os problemas. A solução passa, assim, por "adoecer com método", deslocando-se às urgências com grande antecedência: "Tiro a senha e vou para a fila. Daqui a uma semana ou duas, quando começar a ficar doente, é a minha vez de ser atendido. As pessoas é que deixam tudo para a última da hora, compreende? Não pode ser".