Um livro menor de um autor maior

Um livro menor de um autor maior

Mesmo sem impressionar, Rubem Fonseca é sempre digno de ser lido com prazer. "Calibre 22" é o seu mais recente livro publicado em Portugal, com a chancela da Sextamte.

Tornou-se fácil, demasiado fácil até, desancar nos livros mais recentes de Rubem Fonseca. Valha a verdade que o velho mestre brasileiro tem-se posto a jeito, com um punhado de obras nas quais são evidentes alguns sinais de desleixo e facilitismo, como se tivesse ficado refém do seu próprio estilo, cultivado com brilhantismo desde os anos 60.

"Calibre 22", a mais recente reunião de contos da sua lavra, enquadra-se neste rol. A repetição de fórmulas espreita em muitas destas narrativas habitadas pela violência, nas quais o autor parece comprazer-se com a sua própria habilidade narrativa. O número elevado de contos (31) e a temática comum podem ajudar a explicar a qualidade desigual, mas a impressão com que se fica ao terminar muitas destas histórias é a de um empenho reduzido do autor na hora de burilar os textos.

Mais grave ainda é a propensão moralista forçada que encontramos em vários dos contos. O Mundo que o autor descreve pode ser feio e sujo, mas, no final, há sempre uma improvável justiça divina, com os maus a serem castigados pelos seus crimes. Os seres que infernizam a vida dos outros com os seus atos eivados de racismo, misoginia e homofobia acabam por arder no inferno, em contraste com a felicidade que se apodera dos justos.

Significa isto que devemos passar ao lado de "Calibre 22"? Nada que se pareça. Ler Rubem Fonseca é um ato de deleite permanente, lúdico em excesso mas sempre estimulante, mesmo quando a safra não é, de todo, "vintage". A escrita ágil, a desenvoltura narrativa e a infinita curiosidade perante o que o rodeia fazem de Rubem Fonseca um caso à parte na literatura de língua portuguesa dos nossos dias.

Além do mais, só a qualidade excecional que atingiu em livros como "Feliz Ano Novo", "A grande arte" ou "Agosto" é que faz com que o sentido de exigência dos seus leitores habituais seja tão elevado. E, acima de tudo, não devemos ser demasiado duros com o tom declaradamente menor da sua produção mais recente.

Aos 93 anos, com uma obra imensa a responder por si, Fonseca continua sobretudo a escrever para sentir-se vivo, criando e desfazendo mundos ou personagens a um ritmo que a maioria dos jovens simplesmente não consegue acompanhar. Que a marcha prossiga, pois. v

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