Um poema é sempre mais do que um poema

Um poema é sempre mais do que um poema


A poesia de Ron Padgett, influente autor norte-americano, está finalmente disponível em Portugal, numa edição da Assírio & Alvim.

Pensemos num poeta atormentado. Tão cioso do que faz que metade do seu trabalho consiste em fazer-nos crer que a poesia, a literatura e até o Mundo não seriam iguais sem o seu magnífico contributo para a decifração do significado da existência. Este perfil, infelizmente mais frequente do que gostaríamos, é o exato oposto de Ron Padgett, o já septuagenário poeta norte-americano cuja escrita chegou a um improvável e alargado número de pessoas graças ao magnífico filme "Paterson", de Jim Jarmusch.

Avesso à afetação e mistificação literárias, Padgett seria até bem capaz de subscrever o célebre verso de Ricardo Reis segundo o qual "sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo", desde que fosse capaz de subtrair-lhe a primeira palavra. Afinal, a sua sabedoria passa, antes de mais, pela ausência de reconhecimento da mesma.

"Eis a minha filosofia: tudo muda (a palavra "tudo" acabou de mudar, tal como a palavra "mudar" agora significa "sem mudança") tão rapidamente que literalmente ultrapassa o meu entendimento, acelera e passa por cima dele tal como algumas das gigantescas ideias nesta área", como escreve no poema "Senhoras e senhores no espaço sideral".

Não se depreenda destas palavras que o poeta é um alienado que se compraz com a ignorância, preferindo quedar-se num lugar sossegado para observar o bulício da vida. Bem pelo contrário. O mundo físico é uma espécie de porta de entrada para o abstrato, território no qual reflete com acuidade sobre tudo e sobre nada: "Seguramente que há melhores coisas para fazer além de beber uma chávena de café instantâneo. Tal como meditar. Acerca do quê? Acerca de tomar uma chávena de café".

Como observador voraz do quotidiano, Ron Padgett socorre-se do que o rodeia como inspiração poética, mesmo que estejamos a falar de "papel cor-de-rosa com linhas azuis", "uma pequena margarida à beira do caminho" ou "charcos de água gordurosa".

A grande originalidade da sua obra reside na mescla de influências: a poesia beat, claro, mas também a filosofia zen, os simbolistas franceses e as artes visuais e performativas. Nesta poesia despida de artifícios, que em si mesmo são o seu principal artifício, rendemo-nos sem queixume à sua insustentável leveza.