O Jogo ao Vivo

Uma chama que nem a morte apaga

Uma chama que nem a morte apaga

Os últimos escritos de Leonard Cohen foram reunidos num único volume, "A chama", que comprova o que há muito sabíamos: o seu legado poético e musical transcende a sua existência terrena.

Presente em todas as fases da sua vida, a escrita assumiu, nos últimos anos, uma importância quase transcendente para Leonard Cohen.

Talvez pressentindo a chegada iminente da morte, o bardo canadiano travou nessa derradeira fase da sua existência uma batalha intensa contra os seus próprios limites físicos, escrevendo furiosamente, mesmo que para tal tenha tido que virar costas a múltiplas solicitações.

"Religião, professores, mulheres, drogas, viagens, fama, dinheiro... nada me excita e alivia tanto do sofrimento como escurecer páginas, escrever", desabafou num dos incontáveis cadernos nos quais anotava tudo: pensamentos, citações, esboços de poemas, simples ideias ou até autorretratos, com os quais invariavelmente se via como alguém tosco e grosseiro, muito distante da imagem construída pelos seus admiradores.

Esse material inédito constitui dois terços do "corpus" de "A chama", o volume póstumo agora publicado sob cuidada vigilância do seu filho Adam, que podemos ler como uma derradeira oferenda por parte de quem passou pela vida com o propósito maior de a tornar um pouco menos cruel e desesperançada.

Embora talvez mais notório nos últimos anos de vida, o sentido de urgência percorre toda a obra de Cohen.

A procura do belo que encetou (e encontrou, fosse na natureza ou na companhia feminina) em nada colidiu com a descida aos abismos de si mesmo que tantas vezes levou por diante. É nessa duplicidade que reside a verdadeira grandeza de uma escrita que, em nome do despojamento, sempre recusou o aparato. "Tão pouco para dizer / tão urgente / dizê-lo", escreveu no poema "A minha carreira".

Se a música foi o seu sustento financeiro, à poesia Cohen deveu o seu maior alimento. Mas é impossível negar que ambas se influenciaram mutuamente, daí saindo mais pujantes. É o que observamos nas letras dos últimos quatro discos, que formam um dos capítulos de "A chama".

Destes, o mais significativo será porventura "You want it darker", editado poucos meses antes de morrer, em novembro de 2016. A impressionante lucidez com que encarou a chegada do fim ("Estou pronto, senhor", escreveu na canção homónima) dá a estes escritos uma dimensão testamentária que os torna ainda mais comoventes.