Uma novidade com quase três séculos

Uma novidade com quase três séculos

Com a chancela da 4 Estações, está disponível uma nova reedição de uma das mais emblemáticas histórias nascidas do engenho de Voltaire, "Zadig ou o destino":

O deleite com que ainda hoje lemos Voltaire, ao contrário de outros clássicos cujos escritos mostram as típicas rasuras do tempo, não se deve apenas à caracterização exemplar dos costumes nem tampouco à sua febril imaginação.

Em tudo quanto escreveu, sejam as obras ensaísticas ou nas de pendor ficcional, sempre houve a noção do cumprimento de um ideal intimamente ligado à defesa acérrima das liberdades e ao combate não menos vigoroso das injustiças. Voltaire sabia que a Humanidade só abraçaria a sua verdadeira vocação no instante em que todas as formas de poder, das políticas às religiosas, estivessem sob o rigoroso escrutínio dos homens. E é precisamente nessa dimensão que encontramos o tal deleite com que ainda lemos hoje os seus escritos.

A mais recente reedição de "Zadig ou o destino" torna bem evidente a premissa atrás indicada. Na figura do sábio eivado de boas intenções que atrai, sem saber como nem porquê, todo o género de ações torpes, encontramos, afinal, os mesmos problemas de quem combate inimigos poderosos cujo rosto nem sequer lhe é permitido ver.

Num Oriente fantasioso, prenhe de semelhanças com o universo característico de "As mil e uma noites", Zadig deambula por toda a parte, observando as diferentes representações do Mal. Mesmo quando acaba por ser vitima desses atos, procura encontrar-lhes um fundo moral, por muito improvável que seja.

Os mal-entendidos em que se vê envolvido são uma autêntica roleta russa, que tanto o atiram para a prisão como o catapultam para o poder.

É, todavia, graças à superior inteligência que supera todas as armadilhas que lhes são colocadas pelos adversários. Para fazer frente aos preconceitos ou à má conduta, socorre-se da lógica e do bom senso, combatendo assim a ignorância com a Razão.

Para lá das doses certeiras de humor e filosofia, há no desenrolar da história de Zadig amplas referências aos tempos políticos e sociais vividos por Voltaire. Como iluminista convicto que era, o pensador satiriza a superstição que as instituições religiosas fomentavam como maneira de assegurar a sua permanência. E aponta na conduta exemplar de Zadig - homem íntegro e justo - a via indicada para o triunfo, respondendo ao insulto e à provocação com a capacidade de discernimento.