Uma terna guerreira chamada Agustina

Uma terna guerreira chamada Agustina

Já está nas livrarias "O poço e a estrada", primeira obra biográfica de fundo sobre Agustina Bessa-Luís. No livro - volume inaugural de uma coleção sobre grandes vultos da cultura portuguesa -, Isabel Rio Novo mostra-nos uma dimensão humana surpreendente da autora de 96 anos.

Em 1949, Agustina Bessa-Luís fez chegar um exemplar da sua novela de estreia, "Mundo fechado", aos quatro maiores vultos literários portugueses de então: Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, Vergílio Ferreira e Teixeira de Pascoaes. Como a escritora recordaria nas décadas seguintes, todos saudaram o seu fulgurante talento, embora a resposta efusiva de Pascoaes só tenha chegado ao seu conhecimento três anos mais tarde.

O que Agustina nunca contou é que as missivas endereçadas a esses autores que tanto admirava foram acompanhadas por notas pessoais num tom de quase súplica, sugerindo dificuldades financeiras graves.

"Seja como for, o livro, editado por minha conta, não se venderá. Os credores batem, por ora respeitosamente, à minha porta", lamentava-se a Ferreira de Castro, acrescentando que "se algumas palavras suas puderem instigar a um tempo o meu ânimo e a venda do meu livro, agradeço-lhe". Um mês mais tarde, reforçou o pedido ao solicitar "uma frase que apresentasse o meu trabalho ao público", apesar de confessar a sua "aversão" por este "esmolar de proteções".

Idêntico procedimento teve com os outros autores. Torga mostrou-se mais contido nos elogios e, por via disso, a autora de "Ternos guerreiros" devotou-lhe durante muito tempo uma indisfarçada animosidade.

De qualquer forma, esta Agustina mais humilde e insegura, muito distante da imagem que se esforçou por transmitir de autoconfiança a toda a prova, é uma das surpresas contidas nas páginas de "O poço e a estrada", a primeira biografia de fundo sobre a escritora amarantina, nascida em 1922.

"Ter encontrado essas cartas em arquivos só contribuiu para que Agustina se tenha tornado mais humana aos meus olhos. Ela fez o que qualquer escritor em início de carreira sempre faz", afirma a autora, Isabel Rio Novo.

Para escrever a biografia, a ficcionista embrenhou-se no universo agustiniano durante dois anos e meio. Releu a sua obra, visitou os lugares que compuseram a sua geografia de afetos, consultou arquivos e analisou a correspondência trocada com outros escritores, entrevistou largas dezenas de amigos.

Após a colaboração inicial, a família vedou o acesso à documentação e à correspondência. Uma atitude que a autora de "O rio do esquecimento" relaciona com o surgimento de outro projeto biográfico, na editora que atualmente publica a obra da romancista mais marcante do século XX português.

Neste retrato amplo, que se recusa a ser "um romance biográfico e uma biografia romancista", subjazem várias Agustinas, fragmentos incontáveis e até contraditórios de uma personalidade que se recusava a deixar-se aprisionar. Exceto pela escrita, convicta como estava de que os livros são "uma maneira sedentária de multiplicar a nossa história".

Nova biografia a caminho


Foram precisos 40 anos para que fosse publicado um sucessor do ensaio biográfico que Álvaro Manuel Machado escreveu, mas não será preciso esperar tanto tempo para que uma nova biografia sobre Agustina Bessa-Luís chegue às livrarias. Há mais de um ano que o historiador Rui Ramos se tem dedicado à investigação, beneficiando do acesso aos documentos da autora na posse da família. O livro vai ser publicado pela Relógio D"Água.