Irritações que nos alegram o espírito

Irritações que nos alegram o espírito

As crónicas de Ricardo Araújo Pereira publicadas na imprensa brasileira no último par de anos foram reunidas num novo volume, "Idiotas úteis e inúteis". Um olhar divertido e mordaz sobre um país que é quase um continente.

Um dos maiores lugares comuns acerca do humor é o que proclama aos quatro ventos a sua universalidade. Claro que a ideia de que o apelo de uma gargalhada é capaz de deitar por terra toda e qualquer diferença entre os seres humanos não deixa de ser reconfortante, mas dificilmente sobrevive à prática, pela evidente ingenuidade que carrega.

Que o diga Ricardo Araújo Pereira (RAP). Nas crónicas semanais que escreve há quase uma década para a "Folha de São Paulo", agora reunidas no volume "Idiotas úteis e inúteis", o humorista não altera por aí além o ADN das suas observações, mas ajusta naturalmente esse enquadramento, com o propósito de compreender um pouco melhor a realidade que se propõe descrever e chegar deste modo a um número mais alargado de pessoas.

Esta inflexão evidente abre novas e interessantes perspetivas sobre a lógica do seu humor. O gigantismo da realidade brasileira a isso obriga, em oposição (pelos melhores e piores motivos) ao quintal lusitano, onde os protagonistas são quase sempre os mesmos. O campo político é o melhor exemplo disso mesmo.

Uma coisa é RAP zurzir por cá um político arrivista com ideais estafados que, apesar da meia dúzia de votos colhidos nas urnas, sonha ser um líder populista quando crescer mais um pouquinho. Outra, bem diferente, é já ser esse político, como acontece no Brasil.

Alvo (demasiado) fácil de piadas, Jair Bolsonaro é amplamente citado no livro, cujo título parte, aliás, de um comentário seu que suscitou forte polémica. Mas, curiosamente ou não, as crónicas nas quais o talento de RAP mais sobressai são as que se afastam da atualidade noticiosa para se centrarem na observação comportamental.

É nesses escritos que o cofundador dos Gato Fedorento dá azo ao seu papel de "reaccionário com dois c" e confessa o seu desajustamento ou incapacidade de seguir as modas ou comportamentos dominantes. Em grande parte, porque, segundo diz, "o ser humano é admirável, os seres humanos nem tanto".

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Ou então, como confessa a dada altura, a razão será afinal outra: "Ando a tentar ser vintage, mas não consigo; estou apenas a ficar velho".

A encabeçar a longa lista de irritações encontramos, destacadas, as redes sociais. O espaço virtual em que lavra um incêndio permanente é, para RAP, sinónimo de inferno, "mas, provavelmente, mais intenso".

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