Manual de instruções da vida quotidiana

Manual de instruções da vida quotidiana

Gonçalo M. Tavares retoma a sua coleção sobre cidades com as três histórias curtas que integram o volume "Bucareste-Budapeste: Budapeste-Bucareste":

Entramos no mais recente livro de Gonçalo M. Tavares como entramos numa sala de cinema às escuras: tateando por entre obstáculos e pressentindo vultos que aos poucos se vão tornando familiares, à medida que nos habituamos aos seus contornos.

A comparação cinematográfica não é inocente. Qual realizador experimentado que tem diante de si um guião rigoroso, Tavares aproxima e afasta planos, corta o supérfluo e gere as tensões, aguardando pelo momento certo para revelar a informação que fará o leitor ter uma perceção diferente.

É exemplo maior desse plano o conto inicial, que dá título ao livro. Duas narrativas que correm a par, sem jamais se tocarem, até porque se movem no sentido diametralmente oposto: na primeira, acompanhamos as movimentações de dois homens que roubam uma estátua. Mas não uma estátua qualquer. Ela representa Lenine, símbolo de um regime deposto. Tanto basta para que a decapitem e procurem transportá-la em segredo para o país de origem. Percebemos que o episódio se passa num período pós-guerra, o que confere ao ato uma força e um simbolismo acrescidos.

Em paralelo, outra ação nos é apresentada - um indivíduo transporta no carro o cadáver da sua mãe e procura fazê-lo chegar do outro lado da fronteira. Para escapar à curiosidade burocrática, enceta uma viagem da qual só sabe mesmo o destino a que quer chegar.

Por muito distinto que seja aquilo que move os protagonistas, o seu princípio é similar - mais do que recompensas materiais, procuram escapar aos longos braços da lei.

Fazem-no mais por uma crença no sentido de justiça do que pela mera tentativa de afrontar o regime oficial. Acreditam que o que estão a fazer é o mais correto e estão dispostos a correr riscos em nome dos seus ideais.

Ao fulgor da narrativa inicial sucedem-se dois contos que, mesmo sem uma intensidade idêntica, acentuam o propósito do autor de criar uma lógica do absurdo que lhe é particularmente cara. Em "A fotografia", ficamos a conhecer um vampiro de Belgrado que, em vez de sugar sangue, opta por devorar imagens. Já a berlinense Martha, na derradeira história, manifesta outra obsessão: quer limpar a cidade da imundície dominante. Também aqui, a revolta individual quer sobrepor-se à força do passado coletivo, carregado de memórias.

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