No experimentar também está o ganho

No experimentar também está o ganho

Livro de Julio Cortazár há muito esgotado, "Histórias de cronópios e de famas" foi agora reeditado pela Cavalo de Ferro. Uma oportunidade de reencontro com a escrita do magistral autor argentino.

Há textos curtos que, de tão sumarentos, valem tanto ou mais do que uma enciclopédia inteira. Em "Histórias de cronópios e de famas" - livro que Julio Cortázar publicou em 1961 - encontramos pelo menos uma mão cheia desses exemplos, capazes de atenuar em larga medida o caráter desequilibrado do livro. Nenhum texto porventura será tão delirante como "Instruções para subir uma escada", uma breve narrativa em que o autor argentino eleva ao limiar do absurdo a explicação de uma tarefa aparentemente simples.

"Para subir uma escada começa-se por levantar esse pedaço do corpo situado na parte inferior direita, envolvido quase sempre em couro ou camurça e que salvo raras exceções cabe perfeitamente num degrau. Uma vez colocado no primeiro degrau esse pedaço, a que para abreviar chamaremos pé, recolhe-se a parte equivalente do lado esquerdo (também denominada pé, mas que não deve confundir-se com o pé anteriormente referido) e levando-a à altura do pé, passa por ele até ser colocada no segundo degrau, no qual o pé descansará, enquanto no primeira descansará o pé", explica o autor do incontornável "Rayuela - O jogo do Mundo" no meio de um longo e improvavelmente humorístico relato.

O mesmo princípio explicativo é aplicado em relação a outras tarefas como "matar formigas em Roma", "dar corda ao relógio" ou "compreender pinturas célebres". O objetivo, não assumido, é tão só o de satirizar até à exaustão o caráter tecnocrático de uma sociedade que insiste em afastar-se da pureza e simplicidade iniciais.

Coletânea de textos avulsos estruturados em torno de quatro capítulos sem relação entre si, "Histórias de cronópios e de famas" apresenta o mesmo apego à liberdade e experimentação que Cortázar tanto prezava. No capítulo "Matéria plástica", a exploração do absurdo atinge níveis inauditos e hilariantes. Neste relatos tão curtos quanto intensos, encontramos de tudo um pouco: bicicletas que ganham vida e se rebelam contra os seus donos, mas também a história de "um certo senhor" a quem cortaram as cabeça e que, em virtude de uma greve que impediu que fosse enterrado, "teve que continuar a viver sem cabeça e arranjar-se a bem ou a mal".

Quem aguardava pela altura certa para aventurar-se na escrita de Julio Cortázar, o presente livro bem que pode ser o pretexto ideal.