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Nos 20 anos da morte de um poeta imenso

Nos 20 anos da morte de um poeta imenso

A "Gazeta Literária" dedica o seu novo volume ao poeta Daniel Faria, falecido há 20 anos. Uma publicação para ler e guardar.

Daniel Faria foi, muito provavelmente, o último milagre da poesia portuguesa. O assombro causado pelos seus livros "Explicação das árvores e outros animais" e "Homens que são como lugares mal situados" não tinha sido sequer processado quando a notícia brutal da sua morte, aos 28 anos, deixou nos leitores a sensação de desamparo característica de quem vê partir um dos seus.

A publicação póstuma de "Dos líquidos", em 2001, reforçou a evidência de que, apesar da sua partida escandalosamente abrupta, o seu nome permanecerá familiar para todos quantos veem na alumiação poética uma forma supletiva de se ser humano.

Nos 20 anos da morte física de Daniel Faria, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) resolveu consagrar-lhe o seu mais recente número. Uma edição que, contrariando a efemeridade própria de qualquer publicação periódica, parece ter sido feita para ser guardada e resistir ao tempo, como a própria poesia de Daniel Faria.

No cerne da "Gazeta" encontramos uma versão integral da entrevista concedida, em 1998, ao jornalista Francisco Duarte Mangas para o "Diário de Notícias". A conversa, plena de significado, ajuda-nos a perceber que a poesia era, para o jovem autor, mais ainda do que uma extensão da sua vida, uma dádiva. "Eu escrevo para os outros", começa por afirmar, explicando que a publicação de um poema acarreta a sua perda por parte do autor. O afeto só é recuperado quando os leitores o leem e "trabalham o mecanismo secreto do amor", num diálogo ininterrupto.

Deste número faz ainda parte um breve texto lido por Faria na sede da AJHLP, em 1998, no âmbito de um ciclo de conversas "Retrato do artista enquanto jovem", em que confessa que "se fosse pintor, há dois quadros que nunca pintaria: um auto-retrato e uma natureza morta". Enquanto poeta, todavia, o seu auto-retrato pode ser visto (ou lido) nos textos que escreve, reitera.

Ler Daniel Faria através do olhar dos outros é o que encontramos também noutros artigos da revista. Como a explicação que o fotógrafo Augusto Baptista dá acerca da famoso retrato do poeta, captado em 1998. Dos poemas-tributos que podemos ler, subjaz a certeza, exemplarmente transmitida por Pedro Teixeira Neves, que "talvez seja bom morrer sem fim/e isso é tudo o que nos pode consolar".

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