O lado florido dos dias de chumbo

O lado florido dos dias de chumbo

"Dias e dias", o novo livro de Adília Lopes, é um relato terno e profundo dos seus dias de confinamento.

Nas semanas de confinamento - que acabaram por transformar-se em meses e pareceram anos... -, muitos foram os escritores que confessaram ter sido incapazes de escrever uma linha sequer. Toldados pelos acontecimentos, viram o espaço mental indispensável para a criação ser invadido pela força opressora da realidade.

Mas, por muito dominante que tenha sido, esse bloqueio não foi generalizado. O novo livro de Adília Lopes é um bom exemplo da demanda da esperança tão importante para a manutenção da crença humana. Relato não exaustivo do período de confinamento, "Dias e dias" é uma obra tão desconcertante como a sua própria poesia. Ou seja, intrinsecamente livre e avessa a quaisquer normas. Uma evidência que é reforçada logo na página inicial do livro, com a autora a proclamar que "a poesia desentropia".


Essa função agregadora da condição poética é um dos eixos principais da sua escrita, assente numa coloquialidade que não exclui elementos vistos como seus contrários.


"É a quarentena do coronavírus. Não devo sair de casa. Tenho 60 anos, hipertensão e diabetes. Vivo sozinha. Não tenho net, não tenho televisão. Nem um candeeiro tenho para ler e escrever. Os trocos são poucos. Mas sou feliz. Tenho uma telefonia de pilhas que me deu uma amiga. Pelas quatro da tarde oiço na Antena 2 os programas "Pausa para dançar" e "Há cem anos". Gosto muito destes programas. Aprendo muito, oiço músicas bonitas", escreve Adília numa nota data de 31 de março que resume, com uma clarividência tocante, o universo particular em que se move, muito distante das crispações e frivolidades habituais.


Por entre notas de um quotidiano só seu, lemos, com incontido interesse, evocações fugidias de uma infância da qual se recusa a afastar em demasia, convicta como está de que vive e sempre e viverá "anos adolescentes".


A saudade pelos que já partiram espreita destas impressões ternas e profundas, também recheadas de humor, ainda mais evidente por não ser voluntário. Como acontece na entrada relativa à sua tentativa de aprender a cozinhar, com o auxílio do livro "A colher de pau", de Maria de Lourdes Modesto: "Cozinhar tem sido alucinante para mim, uma terapia. Vem aí a macacoa, a miséria? Sem esparguete, com coronavírus, a vida não é divertida. Por enquanto divirto-me".

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