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O poema enquanto ferida por sarar

O poema enquanto ferida por sarar

Através de uma nova e ampla recolha, a poesia de Luís Miguel Nava volta a estar disponível aos leitores no ano em que se assinala um quarto de século sobre a morte do poeta natural de Viseu. Os vários textos inéditos são um aliciante adicional desta edição, coordenada por Ricardo Vasconcelos.


O tempo foi o maior aliado de Luís Miguel Nava, poeta cuja busca sempre foi a de uma escrita que "para ser compreendida ou apreciada, necessitasse de envelhecer, como se o que nela fosse novo a afastasse dos leitores, impedindo-os de ver o que nela houvesse de essencial". Um quarto de século volvido sobre a sua morte, ocorrida quando tinha 38 anos, "esse processo de familiarização estará ainda em parte por fazer", como bem sublinha Ricardo Vasconcelos no prefácio.

Mas o que na altura era visto por muitos como matéria simplesmente estranha ou então como algo demasiado difuso para poder ser inscrito numa das correntes poéticas então em voga, adquiriu com os anos a evidência dos eleitos - o contacto com esta poesia abrasiva e intensa, não raras vezes violenta nas suas imagens quase alucinatórias, não abre espaço para o conforto ou quietude.

Nestes poemas, os sentidos são expostos e abertos como substância volúvel que são, cobertos por uma "pele que serve de céu ao coração": "Quem como eu não sentiu já no corpo um dos seus órgãos a afundar-se? Sentir nele os brônquios, por exemplo, ou o fígado, o intestino, a vários metros de profundidade torna-nos, entre outras coisas, impacientes. Mais, contudo, quando a pele, que com eles sonha, devagar no-los espelha, subterrânea".

É uma espécie de ferida aberta a que encontramos nestes poemas descarnados, em que o rigor formal só é superado por uma aparatosa imaginação cujo ponto de partida e fim último é o corpo, o reduto absoluto em eterno confronto com "as múltiplas alegorias da experiência do mundo", de que fala o responsável da edição.

Nos 15 anos em que publicou, entre 1979 e 1994, Nava pode ter estruturado a sua poesia em torno do mar, pele, coração ou céu, aos quais soube incutir uma marca indissociável que passava pela componente física, reveladora de uma ânsia vivencial poucas vezes presente na tradição poética lusitana.

A inclusão de dois longos textos inéditos é a principal novidade do livro. Sem abandonar o tom poético, o autor de "O céu sob as entranhas" aventura-se em "O livro de Samuel" e "Romance" por territórios distintos, mais próximos da prosa. Apesar de se encontrarem ainda num estado fragmentado na altura da morte do poeta, são documentos relevantes para uma compreensão mais ampla de algumas das fixações que norteavam a sua escrita.

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