Observar o Mundo a partir do Minho

Observar o Mundo a partir do Minho

Adolfo Luxúria Canibal revela faceta menos conhecida numa curiosa recolha de crónicas, intitulada "Garatujos do Minho".

Com três décadas e meia de exposição pública contínua - musical, mas também literária e performativa -, Adolfo Luxúria Canibal é uma daquelas figuras de quem julgamos ter captado há muito a essência. A de alguém que concebe a arte como motor infatigável de procura do que nos rodeia. Mas também do homem capaz de dar voz à mais funda individualidade, mesmo que por interposto eu, seja Heiner Müller ou o Conde de Lautréamont.

Todas estas certezas sofrem um severo abalo com a leitura deste "Garatujos do Minho", uma recolha das crónicas escritas para a Imprensa durante dois anos. A razão desse espanto é simples de explicar: sem deixar de ser tudo o que foi enunciado, Adolfo é também mais do que isso.

O artista cosmopolita que transportou para a sua obra vivências colhidas em paragens distantes (seja Berlim, Paris, Budapeste ou Istambul) tem também um lar a que chama lar. E esse lar é o Minho. A sua amada Braga, mas também Guimarães , Viana do Castelo, Ponte de Lima, Caminha, Barcelos, Valença e não só.

Mais do que uma afirmação da identidade ou uma busca pelas suas raízes, estas crónicas são viagens. No tempo e no espaço. Escritas com erudição e elegância, mas sempre bem firmementes ancoradas no concreto do quotidiano, são um guia que nada procura impor ao leitor. Apenas partilhar. Memórias. Locais. Curiosidades. A História em todo o seu esplendor, portanto.

O sempre vibrante Minho, quer nas paisagens naturais quer nas humanas, entra-nos de supetão por estas páginas. Através dos símbolos maiores da região (como o Paço dos Duques de Bragança ou a Sé de Braga), mas também locais imunes às massas, de que são exemplos a Capela de São Frutuoso ou o Mosteiro de Tibães.

Não são evocações redundantes as que nos são trazidas. Nestas deambulações, sem lugares ou horas marcadas, o cronista procura sempre enriquecer-nos com elementos que fogem das tais banalidades que nos habituámos a ouvir ao longo dos tempos. Como a explicação dos motivos pelos quais o casco histórico bracarense não tem a monumentalidade ou ancestralidade que seria de supor numa terra bimilenar: cada novo responsável, fosse político ou religioso, acabava sempre por destruir o trabalho do seu antecessor, numa tentativa de afirmação da sua identidade e, claro, menosprezo pelo que ficou para trás.