Os cromos do nosso descontentamento

Os cromos do nosso descontentamento

Pedro Vieira reúne no seu novo livro, "Sou só eu que", "50 tipos de portugueses que nos dão instintos assassinos". Uma obra sobre a fauna humana da pior espécie.

Podem ser altos ou baixos, conservadores ou progressistas, tímidos ou exuberantes, mas, lá bem no fundo, os protagonistas do novo livro de Pedro Vieira, "Sou só eu que...", têm mais em comum do que julgam - são todos insuportáveis. Mas não só. Como defende o autor de "Maré alta", estes 50 tipos de portugueses reunidos no livro são capazes de provocar "instintos assassinos" em qualquer monge budista.

Exagero? Compare-se, por exemplo, um teórico da conspiração com um suposto "influencer". O primeiro consegue tirar do sério qualquer pessoa pela forma como vê em todos os acontecimentos do dia a dia, mesmo os mais bisonhos, exemplos evidentes de que somos regulados por uma mão invisível. E os segundos? São tão mas tão irritantes que Kafka, se vivesse nos nossos dias, não teria dúvidas em transformar o pobre do Gregor Samsa da sua novela "Metamorfose" num influenciador digital, dando assim algum merecido descanso à pobre barata ou escaravelho.
Com desenvoltura e graça q.b., Pedro Vieira vai desfiando os tipos de pragas sociais para as quais, infelizmente, não há pesticida que resulte em pleno, embora a indiferença pareça ser o mais eficaz dos remédios não tóxicos.

Apesar do exemplo já citado dos "influencers", quase todos estes cromos existem desde tempos imemoriais e, a menos que alguém os teletransporte para Marte, assim continuarão a existir no futuro.

Uma verdadeira fatalidade, se pensarmos que isso significa que iremos continuar a lidar todos os dias com o picuinhas da bica. Um espécime, como bem sabemos, particularmente irritante, porque insiste em fazer do café - afinal de contas, apenas "água a ferver que empapa um pó injetado em cafeína e sabe-se lá o que mais" - numa experiência científica fora do alcance do comum dos mortais. Além de só beber café em chávena fria, exige que o mesmo seja tomado no estabelecimento "x", que seja de marca "y" e pertença ao lote "z". Caso contrário, o café, perdão, o caldo fica entornado.

Nestes 50 chatos profissionais aqui reunidos, qualquer leitor irá acabar por reconhecer-se num deles. E será tentado a achar que esse tipo em concreto é o mais simpático da lista, mesmo que estejamos perante um exibicionista hipocondríaco, um beto de esquerda ou um evangelista acidental-musical...

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