Os mitos também são de carne e osso

Os mitos também são de carne e osso

João Reis resgata a figura de Gil Vicente num romance que é um verdadeiro tratado de linguagem.

Todos sabemos há muito que o primeiro passo para retirar um autor das amarras do seu tempo e fazê-lo ser lido nos dias de hoje consiste em humanizá-lo. Ou, dizendo o mesmo de outro modo, "desbustificá-lo", torná-lo gente e não tanto um busto, como tantas vezes sucede.

"Quando servi Gil Vicente", novo livro de João Reis, é, antes de mais, um contributo para tornar mais próxima de um leitor do presente a figura de alguém que, embora ainda seja visto hoje como o grande nome do teatro português, sempre foi rodeado por uma aura de mistério que nem a passagem dos séculos logrou dissipar.

É pelo olhar do seu aprendiz que o "mestre" nos chega. Anrique Hispano, Anrique dos Cascos, Anrique de Viena ou simplesmente Anrique. Regressado à pátria após anos de deambulações pela Europa fora, ele toma a cargo a missão de acompanhar um Gil Vicente cansado e gasto nos derradeiros anos de vida.

Pela sua prosápia, descaramento e desfaçatez, Anrique é a personagem central de uma narrativa que ele próprio vai desfiando de um modo excessivo e redundante, mas por isso mesmo irresistível.


Perante um exaurido mestre, forçado a aceitar encomendas muitas vezes indignas para compor a magra pensão que recebe, Anrique recorre a toda a espécie de ardis. Mesmo que isso passe por roubar legumes aos vizinhos ou iludir os vendedores ambulantes.

A reconstituição histórica pormenorizada conduz o leitor pelos caminhos esconsos de uma capital quinhentista muito mais medieval do que próxima do Humanismo que já se manifestava na maioria dos países europeus de então.

É, todavia, pelo impressionante trabalho de linguagem levado a cabo neste volume que Reis merece os maiores louvores. Se se tornou quase um lugar-comum dizer-se que o empobrecimento da linguagem é uma marca iniludível da escrita contemporânea, o modo como o autor de "A noiva do tradutor" escreve de acordo com os cânones da época retratada mostra uma variedade de recursos e um domínio dos mesmos absolutamente notáveis.

Um feito ainda mais significativo porque colocou um grau de exigência (dos longos parágrafos à ausência de capítulos) que vai caindo em desuso, em nome da propalada vontade de ir ao encontro dos supostos gostos dos leitores.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG