Os tempos mudam, a vontade nem tanto

Os tempos mudam, a vontade nem tanto

Originalmente publicado em 1993, o ensaio de Maria Filomena Mónica "Visitas ao poder" tem uma nova edição, revista e aumentada. Uma nova oportunidade para avaliarmos a relação raras vezes pacífica entre os cidadãos e o Estado.

É pelo traço genial de Paula Rego, autora do desenho na capa de "Visitas ao poder", que começamos por entrar no espírito do livro de Maria Filomena Mónica (MFM): afinal, a menina assustada perante a proximidade de um bicharoco com rosto angelical representa o próprio cidadão português, incapaz de fazer frente a um Estado descomunal que, ao invés de proteger os seus, opta submergi-lo em regras e leis.

Foi no início da década de 1990 que MFM, liberal convicta com uma conceção britânica do modelo de Estado, se predispôs a um exercício tão penoso quanto útil: avaliara relação dos portugueses com o poder, representado na figura do juiz, do deputado ou do padre.

Quase três décadas volvidas, é indesmentível a constatação de que os tempos mudaram. A revolução tecnológica atenuou o fosso entre os cidadãos e os representantes do poder; a justiça passou a sentar no banco dos réus políticos e banqueiros (a condenação efetiva é outra história...); a Igreja continua a perder fiéis a uma velocidade estonteante, adensando os sinais de uma sociedade laica.

No essencial, todavia, a formulação impõe-se: será que mudámos assim tanto? Ao lermos as peregrinações de MFM pelos tribunais, assembleias e igrejas, ficamos com dúvidas. Muitas. Afinal, se os tempos mudaram, as vontades nem por isso, apetece-nos dizer ao vermos como permanecem intactos alguns dos mais indesejáveis tiques lusitanos, como o culto do chefe (mesmo que seja só um chefinho) e, acima de tudo, a lógica bafienta segundo a qual "o respeitinho é muito bonito".

Esses sinais estão bem representados no capítulo dedicado à Assembleia da República, provavelmente o eixo central do livro. Indiferentes à passagem do tempo, por mais computadores de última geração que coloquem à frente de cada deputado, os diários parlamentares são bem a prova da necessidade urgente da reforma do sistema eleitoral.

Quando MFM escreve que "a atual lei é responsável por dois flagelos: o facto de os deputados olharem para cima, para as direções partidárias, e não para baixo, para os eleitores, e a possibilidade de os deputados se poderem fazer substituir", sentimos que essa observação podia ter lugar hoje mesmo. Uma evidência que em nada nos sossega e só vem reforçar a desconfiança mútua que existe desde tempos imemoriais entre os cidadãos e o Estado.

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