Os únicos e autênticos vendedores de sonhos

Os únicos e autênticos vendedores de sonhos

Jaime Bulhosa partilha memórias e segredos de uma vida dedicada à atividade livreira em "Pedra de afiar livros".

Pergunta de algibeira que afinal não o é: o que vende um livreiro? Livros, não, seguramente, garante Jaime Bulhosa, na introdução de "Pedra de afiar livros": "O livreiro vende aventuras, viagens e "Volta ao Mundo em Oitenta Dias". Continentes, países e "Cidade Proibida". Romances, dramas e "Sexus". História, pré-história e civilizações clássicas. Batalhas, "Guerra e Paz". Reis, rainhas, "O Príncipe" e "O Conde Monte Cristo". Pintores, escultores, "O Arquiteto", fotografias. Música, versos e poemas. Sonhos, autoajuda, artes divinatórias e outras mentiras. Constituições, leis, decretos-leis. Tudo isto e muito mais numa caixa mágica chamada livro".

A paixão com que Jaime Bulhosa escreve sobre o tema não se fica pelas páginas iniciais e constitui a razão maior pela qual este é um livro que se lê com tamanho enlevo.

Ligado à área desde sempre - ou não tivesse crescido no seio de uma família de editores e livreiros -, o fundador da Pó dos Livros, em Lisboa, faz da militância da leitura uma das condições estruturantes da sua existência. Como facilmente percebemos ao longo das muitas dezenas de episódios soltos que vai partilhando connosco, reveladores de uma genuína vontade de partilhar o gosto pelas letras com o maior número possível de semelhantes.

No mais divertido dos capítulos do livro, "Livreiros vs. clientes", Bulhosa desfia as situações bizarras por que estes profissionais tantas vezes passam, obrigados que são a aliar o domínio da Psicologia, Religião, Política e sobretudo Relações Públicas com os conhecimentos literários.

Como a história do leitor que queria formar uma biblioteca à viva força, começando por comprar livros de autores começados apenas pela letra A. Mas também a do indivíduo que, depois de certificar-se junto do livreiro que estava de facto numa livraria, pede um maço de tabaco, umas fotocópias e uma chave do Euromilhões... E sem esquecer, claro, a do livreiro noviço a quem perguntam se tem "A morte de Ivan Ilitch" e responde, pesaroso, que não tem qualquer livro desse escritor.

Nesta declaração de amor incondicional aos livros, o tom arrebatador só é travado quando Jaime Bulhosa aborda o futuro sombrio das livrarias independentes, cuja lista de vítimas incluiu a própria Pó dos Livros, encerrada em março de 2018 e entretanto reaberta com outra gerência

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