Poemas que recusam a miséria dos dias

Poemas que recusam a miséria dos dias

O novo livro de João Luís Barreto Guimarães é uma apologia da poesia em "Movimento" e representa uma síntese feliz de um percurso literário cujo início remonta a meados da década de 1980.

É em torno do "antecipar (d)a felicidade sobre a miséria dos dias" que João Luís Barreto Guimarães (JLBG) constrói o seu novo volume de poemas, muito provavelmente o mais equilibrado da dezena de títulos que já publicou. Fá-lo em "Movimento", síntese feliz de uma obra que, desde a segunda metade da década de 1980, sempre se mostrou exemplar no modo como consegue colocar em par a ação e a reflexão.


Ciente de que "em cada dia cabe uma vida inteira", como escreveu Adam Zagajewski, JLBG extrai da contagem anódina de instantes todas as impurezas e rugosidades que retiram sentido à existência, detendo-se nas suas supostas imperfeições ou insignificâncias para louvar o que raramente designamos como tal.

O milagre da vida, mesmo em tempos vistos como sombrios, renova-se em permanência, porque "na manhã do outro dia o mundo está sempre de volta", como escreve o poeta. Seja "a tampa de prata do ralo do lavatório", o "degrau de madeira" que range à nossa passagem ou "o guarda-chuva preto que não conseguiu resistir ao vento fustigador" e "jaz agora fraturado numa esquina do presente", há um manancial de detalhes que nos escapam de um quotidiano mais rico do que o nosso olhar embaciado apenas entrevê, anestesiado como está pelas pretensas grandiloquências que nos monopolizam a atenção.

Não se circunscreve, todavia, às dialéticas do dia a dia a poesia de JLBG, cujo interesse advém também da forma como sabe convocar outros estados de espírito. Na figura do sr. Lopes - personagem recorrente da sua obra -, por exemplo, o poeta concentra a mesquinhez combinada com a arrogância de quem sabe que "o nepotismo" e "o adormecimento moral" são aliados mortíferos que raras vezes encontram o antídoto certo.

Essa constatação da culpabibilidade (por omissão) das maiorias si enciosas está também presente em "Os lugares eram fantásticos", um admirável poema em que o autor disserta sobre a instalação da barbárie a partir do ponto de vista de um espectador que assiste a uma execução como se estivesse na ópera, elogiando "as cadeiras ótimas"e a possibilidade de ver "tudo ao pormenor". A sede de sangue das multidões espreita por estes versos em que a vontade de ver "tudo ao pormenor" só é suplantada pela vontade de assistir à "justiça a ser reposta".

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