Um mistério por decifrar chamado Agustina

Um mistério por decifrar chamado Agustina

Um número especial da revista "Egoísta", com o contributo de mais de uma dezena e meia de autores, evoca obra de fôlego de Agustina Bessa-Luís.

Absoluta como era, Agustina Bessa-Luís reagia ora com altivez ora com distanciamento às homenagens com que era frequentemente mimoseada. Não por ignorar as opiniões que os outros tinham acerca de si, mas porque achava a falsa humildade a pior das vaidades. Era o que, muito provavelmente aconteceria de novo se tivesse conhecimento do número especial da revista "Egoísta" dedicado na íntegra à sua obra e agora reeditado por ocasião da sua morte.

Reler os textos escritos há pouco mais de uma dúzia de anos por escritores de quem era amiga (mas não só) é aceder a esse pequeno território do infinito para o qual a obra de Agustina Bessa-Luís já caminha. Mas é sobretudo constatar a admiração, a meio caminho entre a reverência e o temor, que a sua figura infundia junto dos colegas de ofício.

Como recorda Almeida Faria, a amarantina genial "subscreveria de boa vontade a frase de Robert Walser: "Ninguém tem o direito de me tratar como se me conhecesse"".

Essa aura de mistério e inacessibilidade percorre boa parte dos depoimentos incluídos no volume. Mesmo os que cultivaram uma relação próxima com a autora de "As adivinhas de Pedro e Inês" jamais demonstram cair na tentação de captar a essência agustiniana. A própria Agustina alimentava esse jogo de dúvidas. Numa entrevista a Artur Portela, explicou que não era amiga de ninguém, embora fosse "justa com todo o mundo".

Num longo artigo impregnado de afetos, Inês Pedrosa percorre a vida da "indeslumbrável, iconoclasta, incorrigível" Agustina. Alguém tão senhora de si que não tinha medo em dizer que Camus "é um mau escritor disfarçado de homem de talento" ou que Picasso era "um pintor de porteiras".
Há mais textos dignos de louvor.

Em "Maria Agustina", Frederico Lourenço recorda as discussões tidas na juventude com o seu tio, João Bénard da Costa, a propósito de uma autora que este "considerava inultrapassavelmente genial e eu inultrapassavelmente ilegível". A aversão foi-se convertendo aos poucos em admiração e tornou-se uma verdadeira adulação. Quando a conheceu, por fim, já octogenária, ficou perplexo ao descobrir que quer as próprias filhas quer Sophia de Mello Breyner a tratavam por Maria Agustina: "Conhecer finalmente a Deusa. E perceber que nos enganáramos todos no nome dela".