Um mundo novo nada admirável

Um mundo novo nada admirável

O jornalista britânico Douglas Murray analisa no livro "A Insanidade das Massas" as mudanças vertiginosas da sociedade. Um retrato sombrio dos nossos tempos que peca, todavia, pelo maniqueísmo do autor.

A leitura de "A insanidade das massas" assemelha-se perigosamente à história daquelas relações que se iniciam como se fossem um conto de fadas, com juras de amor contínuas, mas que, sem que saibamos como ou porquê, se vão deteriorando até acabarem de forma traumática, com acusações e recriminações, no mínimo, pouco sensatas.

"Vivemos, atualmente, uma grande insanidade das multidões. Em público e em privado, tanto no online como offline, as pessoas estão a comportar-se de forma cada vez mais irracional e febril, seguindo o rebanho ou sendo simplesmente desagradáveis. O ciclo diário das notícias alimenta-se com as consequências desta situação.

Contudo, apesar de vermos os sintomas em todo o lado, não vemos as causas", começa por apresentar-se Douglas Murray numa declaração que seria facilmente subscrita por qualquer leitor, independentemente do género, idade ou etnia a que pertence.

O tom mantém-se cordato e pertinente q.b. por um bom punhado de páginas até que percebemos (mais lentamente do que seria suposto, talvez) a agenda escondida do autor e as suas reais motivações.

Na conceção neoconservadora do editor da "Spectator" toda a conflitualidade a que assistimos tem como grandes culpados os grupos de pressão ("lóbis", para simplificar) que perseguem e ameaçam quem não fizer a apologia entusiasta da defesa de causas como os direitos das mulheres, negros, gays e transexuais. Com método, mas de forma discricionária, Murray justifica a tese através dos exemplos de pessoas (de jornalistas a políticos) que foram banidos ou castigados por um comentário ou expressão utilizada em tempos.

Dir-se-á, em abono da verdade, que esses defensores das minorias são particularmente persuasivos nos seus argumentos (se quisermos usar um eufemismo) porque essa foi a única solução que encontraram para estarem mais perto de assegurar a igualdade de direitos com os demais.

Ora, a lógica do autor é diversa: como entende que essa igualdade já foi atingida - teoria, no mínimo, discutível - acredita que esses defensores estão agora empenhados em elevar o nível das reivindicações. O que os move, denuncia Murray, já não são os mesmos direitos, mas sim o usufruto de um estatuto especial que lhes permita vingarem-se de séculos de opressão contínua...

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