Uma obra imune à passagem do tempo

Uma obra imune à passagem do tempo

O escritor Ken Follett recorda o violento incêndio na Catedral de Notre-Dame, em abril do ano passado, num pequeno livro marcado pela emoção.

As imagens do terrível incêndio que, há um ano, devorou parte da Catedral de Notre-Dame, em Paris, estão ainda demasiado próximas de nós para que as possamos esquecer. Durante horas intermináveis, milhões de pessoas assistiram em direto ao avanço crescente das chamas sobre uma das obras maiores da civilização humana. Entre os espectadores mais atentos e chocados estava Ken Follett, o popular escritor britânico que sempre manteve uma relação próxima com estes espaços (supra)religiosos, como facilmente sabe quem leu "Os Pilares da Terra".

Não crente, o romancista é, contudo, um visitante assíduo de catedrais desde a juventude, tanto pela beleza arquitetónica como pela paz espiritual que encontra nesses locais.

O impulso para a escrita deste ensaio nasceu logo a seguir ao incêndio - mais do que um documento histórico que acrescenta novos dados, é sobretudo uma homenagem à catedral e aos que a ergueram. O melhor exemplo disso mesmo é a cedência dos direitos autorais em favor das obras de reconstrução da catedral.

Sem se perder em excessivas considerações historiográficas, o autor da trilogia "O Século" traça a evolução do lugar de culto desde 1163, ano em que Maurice de Sully, bispo de Notre-Dame, viu a imponência da catedral vizinha de Sain-Denis e resolveu erguer uma ainda mais imponente. Um século foi quanto demorou a transformação da igreja românica num monumento de pendor gótico, mas, a avaliar pelo impacto que teria na vida de tantos milhões, cada segundo foi precioso.

Mas foi preciso esperar mais de 500 anos para que o simbolismo de Notre-Dame extravasasse o campo religioso ou arquitetónico. Ao escrever "Nossa Senhora de Paris", Victor Hugo não nos legou apenas um magistral romance e personagens ainda hoje lendários como Quasimodo, Esmeralda ou Pierre Gringoire: acima de tudo, inscreveu o edifício no imaginário de muitos milhões que, geração após geração, continuam a vê-lo como um exemplo da superação do Homem. "Os nossos encontros com as catedrais são emocionais. Quando as vemos, ficamos mudos de admiração. Quando as percorremos, a sua elegância e a sua luminosidade arrebatam-nos. Quando nos sentamos em silêncio no seu interior, somos invadidos por uma sensação de paz. E, quando uma catedral arde, nós choramos", escreve Follett.

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