Woody Allen acerta contas com inimigos na sua autobiografia

Woody Allen acerta contas com inimigos na sua autobiografia

Muito provavelmente a melhor criação de Woody Allen na última década, a sua esperada autobiografia dedica, contudo, um espaço excessivo às suspeitas de abuso sexual.

Ninguém trata tão mal Woody Allen como o próprio Woody Allen. Esta é a sensação com que o leitor fica ao ler a sua autobiografia, "A Propósito de Nada", na qual o próprio cineasta se autodefine, entre outros "mimos", como medíocre, ignorante, misantropo e falhado.

Mesmo levando em conta que o tom autodepreciativo sempre foi uma trave-mestra do seu humor, é impossível dissociar essa baixa auto-estima dos sucessivos reveses dos últimos anos. Não por acaso, as suspeitas de abuso sexual que recaíram sobre Allen no início da década de 1990 e regressaram há um par de anos, empurrando-o para uma posição de proscrito, ocupam parte substancial das memórias.

Um espaço porventura excessivo, se levarmos em conta que essa é, de longe, a parte mais desinteressante desta estimulante autobiografia, mas sobretudo porque a reclamação permanente que faz da sua inocência em nada irá mudar o juízo da opinião pública e da comunidade cinematográfica, largamente desfavorável a si.

Nesse exaustivo relato que faz, há um nome que paira sobre todos os acontecimentos, qual espetro maléfico responsável pelo sucedido: Mia Farrow. À companheira do humorista durante 12 anos e musa de mais de uma dezena de filmes, Woody reserva as palavras mais duras, acusando-a de ter urdido uma estratégia de destruição do seu caráter pelo facto de a ter trocado pela sua filha adotiva Soon-Yi Previn. Mas, como bom fã de desportos que é, o autor de "Annie Hall" sabe que a melhor defesa é o ataque, pelo que lança uma série de invetivas a Farrow. Um rol vasto de críticas que fragiliza sobretudo o seu papel como mãe, em que se incluem agressões físicas aos seus nove filhos adotivos e responsabilidades diretas no suicídio de um deles.

Excetuando esta enfadonha descrição jurídico-sexual, "A Propósito de Nada" é, muito provavelmente, a melhor criação artística de Woody Allen da última década. Nas suas páginas encontramos expostas as razões pelas quais o seu humor contagiou tantas pessoas - as observações argutas, a elasticidade mental, as referências eruditas que não excluem a atração pelo "trash" ou os delírios non-sense. Se a continuação da sua atividade cinematográfica está dependente da benevolência dos financiadores, para escrever livros Allen precisa apenas da sua infindável imaginação.

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