Zbigniew Herbert, o poeta que não se limitava a ser poeta

Zbigniew Herbert, o poeta que não se limitava a ser poeta

Intitula-se "Natureza morta com brida" e consiste numa série de de ensaios do polaco Zbnigniew Herbert sobre a natureza e o espírito da arte que merece uma descoberta urgente dos leitores portugueses.


Não consta que Zbigniew Herbert alguma vez tenha dito que um poeta que goste apenas de poesia nem de poesia percebe. Mas, atendendo ao leque vasto de interesses que encontramos nos seus escritos, não espantaria nada se o tivesse dito. Esta abertura aos diferentes saberes acaba até por ir ao encontro do caráter intrinsecamente livre e curioso de uma poesia (reunida em Portugal no volume "Escolhido pelas estrelas") capaz de aliar a releitura dos clássicos com a observação minuciosa do quotidiano. Características extensivas a outros grandes nomes da impressionante poesia polaca da segunda metade do século XX, a começar por Wislawa Szymborska, de quem era, aliás, um grande amigo.


O olhar amplo de Herbert é o que mais nos cativa em "Natureza morta com brida", o segundo ensaio que a Cavalo de Ferro publica no espaço de um ano, depois de "Um bárbaro no jardim".


Se a vida do escritor foi marcada pelos dois totalitarismos em que viveu, o nazismo e o comunismo, nada inferimos na sua escrita dos eventuais traumas e danos causados por essa limitação inaudita de direitos a que esteve sujeito durante quase toda a vida.

Neste conjunto de ensaios sobre a natureza da arte que resultaram de longas jornadas de viagens pelo centro da Europa, sobretudo a Alemanha e a Bélgica, o que impressiona é a placidez da sua linha de pensamentos, ordenada e ininterrupta, como um fio de água no deserto cujo trilho podemos acompanhar, extasiados, durante quilómetros a fio.

Das suas deambulações por museus e galerias, Zbigniew Herbert constrói relatos plenos de humanidade, que recusam as interpretações metafísicas e procuram centrar-se nas motivações dos seus artífices.

Sem julgamentos morais, que podiam facilmente turvar o rigor da análise, o ensaísta observa como a arte é capaz de transmitir como mais nenhuma outra atividade humana a essência de um dado povo. E neste particular nenhum exemplo se ajusta mais do que o holandês - se a sua história "está repleta de episódios traumáticos", com lutas fratricidas com nações poderosas como a Inglaterra ou França, a sua pintura indica-nos outro caminho. "Se os artistas holandeses pintavam a guerra, era a guerra da luz com a escuridão", escreve Herbert, procurando justificar o temperamento pouco sanguíneo dos seus habitantes.

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