Cultura

"Eu não faço mais nada a não ser num teatro onde eu mande"

"Eu não faço mais nada a não ser num teatro onde eu mande"

Estivemos à conversa com Ricardo Pais, encenador da peça "Meio corpo" que estreia esta sexta-feira no Porto, no Teatro Carlos Alberto, onde Será ainda exibido o filme "Al mada nada", às 23 horas.

Como surgiu este filme "Al mada nada"?

Por hábito sempre registei os meus espetáculos, desde os anos 80. Da primeira vez que fizemos o "Al mada nada" apareceu o Luis Porto, um miúdo de 22 anos que queria filmar, com seis câmaras, uma mesa de mistura. Eu disse-lhe que era impossível. Quando voltámos a repetir o espetáculo, eu chamei-o e ele disse: "faço tudo sozinho, um plano de sequência dentro de cena com uma steady cam". Filmámos tudo em 2 horas e 45 minutos. É uma luta contra a efemeridade

É importante lutar contra a efemeridade?

O teatro vive nessa luta contra a efemeridade é o prazer da ideia do espetáculo. Agora os teatros querem é muita variedade. Mas, com isso menos se afunila o gosto e a qualidade. E essa deveria ser a obrigação dos teatros nacionais. As únicas companhias no Porto que dão continuidade a estes trabalhos do teatro independente são a Assédio e a Ensemble, que são veteranas. Podem ter produções umas mais populares, outras mais estranhas e até às vezes outras mais arrevesadas como estas, mas que se mantenham a descoberto as raízes do teatro.

É essencial ter carreiras longas no teatro?

O teatro deve receber espetáculos com carreiras mais longas. Ainda que em geral as carreiras dos meus espetáculos tenham sido curtas. Mas, alguns ficaram em cena oito anos....Ficam "Sombras", "Turismo infinito" e "Raízes". O teatro necessita de ter espaço para alargar as produções caso seja necessário, ou ter espaço para voltar isso é indispensável. As pessoas demoram a chegar ao teatro, ainda que os números digam que a audiência dos teatros de 1994 para cá, tenham subido astronomicamente. E o Teatro Nacional de S. João foi um fator de respeitabilidade do "fenómeno teatral" como diz o nosso colega António Reis.

Esse aumento é positivo?

Hoje em dia qualquer pessoa faz teatro. Mas não é qualquer pessoa que escreve, por exemplo. Porque a crítica sempre foi muito mais exigente na escrita do que do teatro. Isto é tudo culpa de um bairro chamado Lisboa, que falam uma língua chamada lisboeta e fazem representação de novela. Há pessoas a ensinar representação para novela que não ensinam nada, sobre o que é ser ator.

Está desiludido com o teatro?

Eu já não gosto do teatro. Voltei ao teatro porque preciso de ganhar a vida. Já não tenho idade para fazer um épico, agora gosto mais de relembrar coisas que fiz "Turismo infinito", " Sombras" e "Al mada nada" . A absoluta maturidade de uma casa de teatro. Crescemos juntos da bilheteira ao palco, quer dizer eu já vinha maturado. Havia uma total harmonia que ainda existe quando eu volto. Eu não faço mais nada em teatro a não ser num teatro onde eu mande.

Tem algum convite?

Não tenho nenhum convite. Se me perguntar no fundo de mim o que eu gostava era de ter uma casa sob controlo que pudesse dignificar o teatro. Se me perguntar se é o que eu quero, é a última coisa que eu quero fazer na vida. Mas como dizia António Guterres: "Ninguém quer ser ministro até ser convidado".