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Fanny Ardant: "Só escolho os papéis que amo"

Fanny Ardant: "Só escolho os papéis que amo"

Fanny Ardant, a musa de Truffaut, está de volta com "Os Jovens Amantes". O JN entrevistou a lendária atriz que afirmou ter ficado rendida ao argumento mal o leu pela primeira vez.

Trabalhou com Truffaut e Resnais. E aos 73 anos está de volta com "Os Jovens Amantes", onde protagoniza uma história de amor com Melvil Poupaud, 24 anos mais novo. Um trabalho sublime dos dois atores, no filme de Carine Tardieu, já nas salas.

Qual foi a sua reação quando leu o argumento pela primeira vez?
Fiquei imediatamente apaixonada. Queria saber como é que a história acabava. Mas não queria fazer cenas de nu. Fui ter com a realizadora, que me disse que o guião não o pedia, falou-me de como ia filmar as cenas de amor e então disse logo que sim.

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Não são muitos os filmes com histórias de amor entre uma mulher e um homem muito mais novo...
Temos em França um Presidente da República na mesma situação! Admira-me que as sociedades se escandalizem com estas histórias quando elas existem desde os gregos. Antes as mulheres viviam menos. A mulher de 30 anos de Balzac era já uma mulher de uma certa idade. Mas é algo que existiu sempre e por mais que a nossa sociedade se diga liberta, aberta a tudo e a todos, não. Para mim, desde que se trate de amor...

O facto de ser dirigida por uma mulher ajudou-a a aceitar o papel?
Não. Se fosse um homem a fazer um filme assim, seria um homem que ama as mulheres. Um homem que ama as mulheres conhece a vulnerabilidade e a fragilidade de uma mulher. Não se trata se é homem ou mulher, trata-se de sensibilidade. Há mulheres que são brutais e homens que são muito doces.

Como é que se processou a relação com o Melvil Poupaud?
Gostei imenso desde o início. A minha personagem é iluminada por aquele homem, que é o contrário de todos os lugares-comuns que lançamos sobre os homens, que só gostam de raparigas novas, que deixam as suas mulheres para se meterem com outras mais novas. A minha personagem é iluminada pelo olhar daquele homem. Já filmei cenas de amor com homens, em outros filmes. É um falso assunto.

É verdade que trabalhou com alguns dos grandes atores franceses do nosso tempo...
Quando fiz "A Mulher do Lado", assim que conheci o Gérard Dépardieu soube que ia ser uma rodagem muito agradável. Há esses atores que nos tocam. Como o Melvil, que é uma pessoa muito inteligente. Falámos muito de livros. Bebemos muito vinho juntos. Confessei-lhe que era tímida e pedi-lhe para tomar o poder. Ele foi muito delicado, percebeu tudo o que se passava na minha cabeça. É um homem de grande sensibilidade.

Não filmar cenas de nu é uma questão de princípio?
Eu sou muito tímida e pouco à vontade com o meu corpo. Sempre disse que me realizaria, falando. Por exemplo, nunca iria dançar sozinha numa discoteca. Mas posso dançar o tango, porque somos dois.

O que a motiva, para continuar a trabalhar?
Enquanto a paixão pela interpretação se mantiver intacta, continuarei a trabalhar. É preciso que me sinta entusiasmada para pôr um pé no 'plateau'. Uma rodagem tem um princípio, um meio e um fim. Sabemos que não vai durar para sempre. É preciso que cada dia seja uma festa. É por isso que já disse que não me sentia uma atriz profissional, porque só escolho os papéis que amo. Tenho vontade de representar o que nunca representei. Mas é preciso que adore essa personagem.

E a carreira de realizadora, em que ponto se encontra?
Já escrevi um outro guião. Quando tiver o dinheiro e o tempo, farei um novo filme como realizadora. Só realizei filmes graças ao meu produtor, o Paulo Branco. É como o último dos Moicanos. É um dos últimos grandes produtores. É audacioso, e isso é cada vez mais raro.

Que recordações tem de Portugal?
O que adoro em Portugal é que é uma terra onde há artesãos. Que fazem qualquer coisa com poucos meios. Fiz o "Divã de Estaline" em Portugal como o "Dr. Jivago" fora feito em Espanha, reconstituí tudo. Tenho sempre grandes memórias das rodagens com o Paulo.

Faz teatro, ópera, cinema, por qual das artes o seu coração bate mais forte?
Sou como uma mulher entre o marido e o amante, não sou capaz de escolher. Cheguei muito tarde ao cinema. Tive uma educação cinematográfica muito em desordem. Gosto de contar histórias e de entrar no universo das pessoas. Gosto que um filme faça do espetador uma pessoa melhor. Não gosto que a literatura e o cinema sirvam para dar lições de moral.

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