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Fat White Family: feios, porcos e muito bons

Fat White Family: feios, porcos e muito bons

Depois de um ótimo concerto no Porto, a banda inglesa de punk e art-rock atua esta quarta-feira na sala Lisboa Ao Vivo. É mesmo coisa a não perder.

O concerto acabou assim, 17 canções corridas depois, com o público que encheu meia sala do Hard Club, no Porto, a cantar inflamado no mesmo coro, como se os espectadores estivessem todos num pub em contestação, "bombardeia a Disneyland, lança uma bomba suja à Legoland", braços erguidos a disparar para o ar. Estava já nisto o vocalista Lias Saoudi em tronco nu a levantar uma roda punk, a dançar aos encontrões na parte da frente da plateia, para onde ele saltava pela quarta vez, e já fizera o seu striptease costumado (começou de casaco, passou para a camisa e acabou a transpirar de peito feito ao léu, um coraçãozinho tatuado no seu branco peitoral), quando o concerto acabou de repente.

Foi 1h15 de espetáculo, e sem direito a encore. É a atitude correta a tomar, a atitude punk - contar à priori com o encore é coisa para públicos pategos - e o concerto teve o tempo certo de entrega e de desejo, deixando os espectadores a querer mais, isto é, no ponto exato de ebulição, ou de salivação, em que tudo ferve mas nada se perde porque nada chega a verter, o público sai ainda cheio de frenesim.

Nove anos depois de tudo começar, e tudo começou no punk de garagem e numa fúria cuspida de som, três álbuns depois e umas quantas polémicas atrás ("Goodbye Goebbels", do disco de 2016 "Songs for our mothers" quase acabou com eles; o refrão problemático era este, ainda que fosse só ironia: "Chew up the old world/ And spit out the new/ Here's to the Fourth Reich/ I bid you a Jew"), o sexteto do sul de Londres continua a fazer lembrar um bando de párias, de verdadeiros proscritos sem fama nem nirvana. Muito particularmente, parecem ser auto deportados, auto boicotados, mas insistindo sempre numa direção: a do seu próprio trilho, que é o único que querem desbravar, mesmo que viajem a maior parte do tempo em turvação.

Com guitarra, baixo, bateria, saxofone e quatro teclados Korg, Casio e Akai, tão gordurosos e pesados que parecem expelir fumo ou feedback, em palco a imagem dos Fat White Family é paródica e risível: vestem-se propositadamente mal, colarinhos fora dos casacos, mangas caveadas, três tocam com óculos de sol, Lias Saoudi acabará a noite com as calças bege sénior numa perna rasgadas, todos a pôr um ar de gozo e de falsa compenetração. Mas, espantemo-nos, o sexteto sujo será agora, quando traz um novo disco, o aclamado "Serf"s up" (parece um trocadilho como o dos "basterds" de Tarantino, mas aqui a alvejar os Beach Boys), parece agora uma banda que tem tudo para finalmente dar certo.

O que lhes aconteceu? O combo cresceu e amadureceu e, mais precisamente, abriu as portas de rompante ao funk, deixando-o corroer o esqueleto de ferro enferrujado do proto-punk da sua fundação. Dois exemplos: "Feet" e "I believe in something better", ambas do novo disco saído no final de 2019. A última é um tapete ondulante de synthpop do início dos anos 80 e é irresistível; a outra é um arranha-céus épico, meticulosamente construído, camada por camada, arrebatador. E também fundem ousadamente outros géneros musicais - como se a psicadélica sombra dos Velvet Underground e o pulsar eletrónico barato dos Suicide encontrassem o canto gregoriano feito pelos T-Rex se os T-Rex tivessem nascido numa feira de vaudeville.

Piratas habituados à rarefação de ar do porão, os Fat White Family são agora um bocadinho menos niilistas do que antes, mas continuam com comportamentos de corsários, com a diferença de que agora querem subir ao convés da embarcação e fazer dela a esplanada e o palco solar dos seus desejos de derrisão.

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Ao contrário dos "Feios, porcos e maus" do Ettore Scola de 1976, em que essa população pura e introspetiva de pobres nunca entendia claramente a piada de mau gosto da sua própria existência (a crueza do filme é uma comédia ou um grito de indignação?), o que faz com que as personagens do título nunca levantem a cabeça para ver as torres e os monumentos de Roma, ou somente o céu, os Fat White Family não só têm uma noção aguda do simulacro da vida, a deles e a de todos, como fazem da auto paródia o seu grande espetáculo, estrinchando consigo próprios, nunca levando demasiado a sério a sua condição de modelos do assombramento rock.

O Hard Club, no Porto, só respondeu pela metade à lotação (público maioritariamente masculino e maduro; saíram todos saciados porque sabiam rigorosamente ao que iam). Esta quarta-feira à noite os seis Fat White Family voltam a montar o seu circo de rock volante, agora na sala Lisboa Ao Vivo onde são estrelas os canalhas da grande arte da sedução.

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