Música

74 mil recordam Queen no Rock in Rio

74 mil recordam Queen no Rock in Rio

Muitos torceram o nariz, outros tantos preferiram ficar em casa a achincalhar no Facebook, mas a verdade é que 74 mil pessoas acabaram por entrar no Parque da Bela Vista na noite desta sexta-feira para o concerto dos Queen com Adam Lambert, um sujeito de 34 anos que aceitou o desafio de se colocar no lugar do desaparecido Freddie Mercury.

É claro que não consegue sequer chegar lá perto: este moço aqui é demasiado pop, demasiado tenrinho. Com Freddie Mercury sentíamos que a voz lhe saltava do sangue a ferver. Havia ali uma genuidade quase animalesca. E uma enorme magnitude vocal. Neste rapazinho, o Adam Lambert, que ganhou um concurso qualquer, há alguma ginástica vocal, sim, mas falta-lhe o resto - que se calhar até é o mais importante.

Ele próprio tem noção da arriscada tarefa a que se propõe. Substituir aquele que foi um dos maiores cantores da história do rock? Não é fácil, ele sabe. No palco da Bela Vista até disse que "só há um Freddie Mercury" e agradeceu ao público o facto de ser-lhe dado o privilégio de ali estar a prestar reverência ao cantor dos Queen que uma doença nos roubou num dia frio de novembro de 1991. Esse gesto ficou-lhe bem - até porque sem demoras disparou-se o primeiro grande hit da noite - "I want to break free" - e 74 mil pessoas ergueram os telemóveis em pisca luminoso e cantaram, braços erguidos ao céu, "God knows I've fallen in love".

Não podemos ser injustos: em "Killer Queen" ele até se portou bem. E, enfim, de nada vale comparar as duas figuras.

Como foi, então, o concerto dos Queen no Rock in Rio? Uma celebração de viagem ao passado com alguns momentos bem conseguidos. Chegaram com meia hora de atraso, a plebe já impaciente, Adam lustroso no seu casaquinho pomposo. E a multidão pronta para a festa. Ao longo de quase duas horas tocaram 24 canções e, como seria de esperar, o povo reagiu melhor aos grandes êxitos. "Under pressure", "Another one bites the dust", "Who wants to live forever", ou, já em encore, "Radio Ga Ga", "We will rock you" ou a inevitável "We are the champions".

Brian May, cuja guitarra mantém aquele som de outrora, agradeceu à "genti porreirá de portugau", como fez questão de afirmar. Cantou, sozinho, "Love of my life", em jeito acústico. E o próprio Freddie Mercury surgiu em vídeo durante "Bohemian Rhapsody", a cruzar a sua voz com a de Lambert, um momento que acabou por resultar bem.

Mika surpreendeu

Conhecido pela criatividade em palco, o músico Mika voltou a surpreender o público ao convidar dois músicos portugueses, pai e filho, para subirem com ele ao Palco Mundo no Rock in Rio.

Após a adocicada "Lollipop", o músico revelou dois convidados especiais, que conhecera na noite anterior, pai e filho, que o iriam acompanhar enquanto cantava ao vivo, pela primeira vez, uma canção que escreveu quando tinha 16 anos e estava um pouco alcoolizado.

O dedilhar da guitarra portuguesa ecoou por todo o Parque da Bela Vista, entrecortado pela voz do músico, que, no final, se atreveu a entoar um "Meu fado, meu fado". O público gabou a ousadia, elogiou-lhe o português e não resistiu ao encanto do momento.

Elétrico e intimista, Mika vagueou entre os registos exuberantes de "Big girl" ou "Grace Kelly" e os mais intimistas, como "Underwater", em que pediu ao público que erguesse os telefones no ar e criasse uma onda luminosa.

Sempre de sorriso nos lábios, cativou as 74 mil pessoas que enchiam o recinto, pondo-as a dançar e a cantar alguns refrães em uníssono.

Para o encore reservou "Love today" e resgatou Mariza dos bastidores para o momento da despedida. Puxou-a para a frente de palco, abraçou-a e fez-lhe uma vénia, ambos de sorriso nos lábios enquanto pediam - em inglês e português - que o público erguesse os braços e saltasse, pela última vez.

Fergie inunda Rock in Rio de sensualidade

A cantora norte-americana Fergie, que já havia pisado o Palco Mundo do Rock in Rio em 2004, com os Black Eyed Peas, regressou cheia de sensualidade para apresentar canções novas e recordar êxitos que entusiasmaram a plateia.

Botas de latex a trepar perna acima e um body negro com um decote vertiginoso deixaram logo a plateia em sentido, a postos para uma atuação onde a sensualidade foi palavra de ordem.

Com novo disco na forja, Fergie apresentou a mais recente "LA Love (la la)" e deixou vislumbrar o que aí vem, ao apresentar nos ecrãs um teledisco a preto e branco de uma nova canção.

O concerto no Parque da Bela Vista marca o regresso da cantora aos palcos, conforme a própria mencionou, e a emoção neste regresso ao Rock in Rio, volvidos 12 anos, fez-se notar logo no início do espetáculo.

"É verdadeiramente emocionante estar de volta a este palco",confessou, perante os milhares que, às 20.30 horas, já enchiam o anfiteatro natural que envolve o Palco Mundo.

Num concerto dividido em três atos e em crescendo, Fergie começou com canções pop - "Fergalicious", "Glamorous" ou "Big girls don't cry" -, enveredou pelo rock - "Star me up", dos Rolling Stones, "Barracuda" ou "Love is pain" - e terminou com uma autêntica discoteca ao ar livre quando já não se via o sol no horizonte. Na reta final apostou num medley de canções dos Black Eyed Peas, sucesso garantido junto do público português.

Para o final deixou a nota de despedida que o público esperava: "I gotta feeling".

Durante a tarde, os Sensible Soccers estiveram no palco Vodafone, num dos topos do recinto, e disseminaram a sua música instrumental plena de subtilezas, psicadelismos e alguns labirintos. Foi, provavelmente, a música mais exploratória - e apontada ao futuro - que se ouviu até agora no festival mas pareceu ser um concerto um pouco deslocado.

O público, na sua maioria, permaneceu alheado. É verdade que o calor também não ajudou - o sol derramava-se com intensidade e o público preferiu procurar sombras. Mesmo assim, umas duas dezenas de militantes aguentaram estoicamente na zona mais próxima do palco.

Curiosamente, muitos mais miravam uma roda de capoeira umas centenas de metros à frente.

Pouco depois, o mesmo palco voltou a dar música cativante com a presença dos brasileiros Boogarins. São uma trupe de gente também sintonizada em piscadelismos e que ao vivo expande as suas canções, entrelaçando-as umas nas outras e alongando mergulhos no transe e na repetição, com crescendos mas sem grandes detonações.

A banda já parece ter uma base de fãs em Portugal, até porque esta não foi a sua primeira visita. "É engraçado estar fora de Portugal e falar português", disse um deles.