Cinema

Festival de Cannes: finalmente, "Benedetta"

Festival de Cannes: finalmente, "Benedetta"

Filme de Paul Verhoeven deveria ter sido mostrado há mais de dois anos.

É muito provavelmente o grande acontecimento de Cannes 2021. "Benedetta" foi pensado para se estrear neste festival em 2019, mas uma doença grave do realizador, Paul Verhoeven, fez com a que a pós-produção do filme fosse interrompida, passando a ser considerado para o ano seguinte. A pandemia levou a que a Croisette não visse o seu festival no ano passado e tanto o produtor do filme, Said Ben Said, como o realizador holandês decidiram não aceitar a chancela Cannes 2020, adiando a estreia para quando fosse efetivamente possível mostrar o filme no certame.

Esse dia foi ontem e bem se pode dizer que valeu a pena a espera. É claro que o filme terá os seus detratores, mas depois de obras de natureza experimental, muitas vezes falhadas, ou de trabalhos que se encontram na seleção oficial de Cannes apenas para garantir quotas desta ou daquela minoria, sabe bem ver uma longa-metragem feita de forma clássica, mas tremendamente eficaz.

Aplica-se perfeitamente a Cannes 2021 a máxima de que nem tudo o que é novo é bom e nem tudo o que é bom é novo. "Benedetta", drama lésbico-religioso ambientado numa Itália do século XVII devastada pela peste, é um filme para o público em geral mas apresenta todas as obsessões do realizador de "Delícias turcas", "Instinto fatal" e "Ela".

Virginie Efira, num papel a léguas da imagem de loura cabotina de tantas comédias menores francesas, interpreta o papel verídico de uma freira que começa a ter visões de Jesus, entrecortadas por fortes impulsos sexuais, vividos com uma jovem acabada de entrar no convento. O filme tem um ritmo implacável, as cenas eróticas de que há muito se falava e acaba, apesar de ser um filme de época, por falar de questões atuais, como a fé, a relação da religião com o poder, o desejo feminino.

O filme tem já garantida distribuição em Portugal e fica-se à espera de reações por parte dos setores mais conservadores da Igreja. Apesar de o filme ir muito mais longe do que obras proscritas como "Eu vos saúdo, Maria" de Jean-Luc Godard, ou de "A última tentação de Cristo", de Martin Scorsese, ainda não se conhece nenhuma posição oficial do Vaticano.

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