Cannes

Filme choque iraniano na corrida à Palma de Ouro

Filme choque iraniano na corrida à Palma de Ouro

"Holy Spider", de Ali Abbasi, baseia-se num caso verídico e promete agitar a discussão em torno do vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

É este o estado das coisas em vários países do mundo. Depois de "Boy from Heaven", do egípcio Tarek Saleh, ter sido rodado integralmente na Turquia, por um cineasta que vive atualmente na Suécia, "Holy Spider", do iraniano Ali Abbasi, cujas obras anteriores foram curiosamente produzidas em países nórdicos, foi filmado na Jordânia.

Na realidade, nudez feminina e masculina e prostituição não são temas que possamos ter jamais visto num filme rodado no Irão. Mas é essa também a beleza e a universidade do cinema. Quem se importa afinal que clássicos como "Apocalypse Now" ou "O Caçador", sobre a guerra do Vietname, tenham sido na realidade filmados nas Filipinas?

Voltando a "Holy Spider", produzido com financiamento da Dinamarca, Alemanha, Suécia e França, o filme passa-se na cidade sagrada de Mashhad, onde um assassino em série matou dezasseis prostitutas que vendiam o seu corpo nas imediações de um templo mítico do país, entre os anos de 2000 e 2001.

É aí que chega uma jornalista que vai tentar desvendar os crimes, contra a inércia das autoridades, acabando por ver-se ela própria nas mãos do assassino, que acaba por ajudar a prender. Mas este, que ficaria conhecido como "Aranha Sagrada", afirma agir em nome de Deus, para limpar a cidade, onde estima haver duas centenas de trabalhadoras do sexo, tornando-se um herói local. O sistema judicial iraniano iria ter nas mãos um caso que colocaria em causa as suas bases legais...

O filme, construído como um policial clássico, aborda todas estas questões com uma frontalidade que não seria possível no próprio Irão, agarrando o espectador desde as primeiras imagens e não o largando até ao impressionante final.

Um caso de cinema de denúncia que não renuncia também ao filme enquanto forma de espetáculo e que será seguramente um dos que mais agitará a discussão no júri nas suas discussões diárias sobre os possíveis mais fortes candidatos à Palma de Ouro.

PUB

Apesar da sua generosidade, não deve ser o caso de "Les Amandiers", nova incursão de Valeria Bruni Tedeschi na realização. A atriz, já com uma longa carreira à frente das câmaras, volta a concentrar-se apenas na realização, homenageando a escola de interpretação criada por Patrice Chéreau no Théâtre des Amendiers, em Nanterre.

Bruni Tedeschi trabalhara com o já falecido realizador e encenador em filmes como "Rainha Margot", em parte rodado em Queluz, e "Quem Me Amar Irá de Comboio", cruzando aqui as vivências de um grupo de jovens de vinte anos, marcadas pela paixão e pelo desejo de ser ator e por uma sexualidade livre que se vê ameaçada pela SIDA.

Mas, apesar de nos irmos aos poucos identificando com cada um deles, e do trabalho de Louis Garrel na recriação da figura e do método de Chéreau, "Les Amandiers" não atinge uma dimensão verdadeiramente cinematográfica que o potencie para mais altos voos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG