Companhia dos Livros

Gente que se recusa a deixar de ser gente

Gente que se recusa a deixar de ser gente

Novo livro de contos de Mia Couto, "O caçador de elefantes invisíveis", é uma ode ao poder de resistência dos desfavorecidos. Retratos duros de um mundo cada vez mais desigual em tempos de pandemia.

Tão desvalorizado pelos editores portugueses, contrariamente ao que sucede com muitos dos seus congéneres de outras paragens, o conto é, quando exercitado na medida certa, nada menos do que a arte da síntese. Conseguir incutir a devida densidade, psicológica e não só, a personagens cuja vida narrativa é marcada pela brevidade extrema, afigura-se uma tarefa mais árdua do que julgaríamos. E se nos romances as digressões circunstanciais ou análises meditabundas servem tantas vezes para mascarar a inconsequência do autor, no conto não há lugar para tamanhas adiposidades narrativas: ali tudo reclama urgência. Como a própria vida, aliás.

Visitante ocasional do género, Mia Couto regressa a estas paragens com um inspirado volume cujo título é extraído de uma das histórias nele incluídas. Nesse conto, um caçador vê a sua rotineira quietude posta em desassossego com a chegada de uma brigada de saúde que pretende alertá-lo para os riscos do novo coronavírus, instando-o a seguir à risca as normas impostas.

Ao fim de poucos parágrafos percebemos que o diálogo entre ambos é missão impossível, tão opostos são os mundos em que se move. Se, para o pacato caçador, ficar em casa significa estar ao ar livre, no interminável parque florestal em que habita e convive com a fauna e a flora circundantes, para os enfermeiros e médicos o entendimento é bem diferente. Da mesma maneira, quando a brigada ordena o encerramento da escola, o homem fica intrigado: "Como se pode fechar o que não tem paredes nem porta? Agora, por baixo do frondoso cajueiro, restavam os bancos corridos, uma tábua pintada de preto e pedaços de mandioca seca que faziam de giz".

Uma lógica semelhante atravessa o primeiro conto do livro, "Um gentil ladrão". Nesta história, um velho solitário recebe a visita de um profissional de saúde que vai de aldeia em aldeia a avisar as populações sobre o vírus à solta. A preocupação sanitária surpreende o ancião, incapaz de perceber por que razão as autoridades não tiveram a mesma atitude quando a sua mulher e o seu filho morreram por falta de cuidados ou quando ele quase sucumbiu aos efeitos da varíola. Como que atingido por um clarão, o homem consegue lembrar-se da doença de que fala o enfermeiro: "Chama-se indiferença. Era preciso um hospital do tamanho do mundo".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG