Cinema

"Gosto de ir beber um copo com os meus atores"

"Gosto de ir beber um copo com os meus atores"

Quatro filmes em sala do realizador coreano de culto Hong Sang-soo é o primeiro grande acontecimento cinematográfico do ano.

Com mais de duas dezenas de longas-metragens realizadas desde que estreou o seu primeiro filme, em 1996, a obra exibida e premiada em alguns dos mais importantes festivais do Mundo, como Cannes, Berlim e Veneza, Locarno e San Sebastian, e um universo e um modelo de produção muito peculiares, o coreano Hong Sang-soo é um dos grandes autores de culto da cinefilia contemporânea.

Depois de, há um ano, a Cinemateca Portuguesa ter exibido a integralidade da sua obra, o filme mais recente, "A mulher que fugiu", chega às salas de estreia, acompanhado de três das películas mais significativos do realizador: "O dia em que ele chega", "O filme de Oki" e "Mulher na praia". Depois da passagem em sala, os filmes serão editados em DVD e disponibilizados na plataforma Filmin.

Urso de Prata em Berlim 2020 para Melhor Realização, "A mulher que fugiu" segue os passos de uma mulher, interpretada pela musa do realizador, Kim Min-hee, que durante uma viagem de negócios do marido se encontra com três amigas. Visita as duas primeiras nas suas casas e a terceira encontra-a por acaso num cinema. "O dia em que ele chega" (passou por Cannes 2011), acompanha a errância de um realizador que vai a Seoul visitar um amigo, vagueando pela cidade onde encontra a dona de um bar estranhamente parecida com a ex-namorada, um grupo de estudantes de cinema e uma atriz.

Premiado em Roterdão 2011, depois da estreia em Veneza no ano anterior, "O filme de Oki" mostra diferentes momentos na vida de três personagens que formam um triângulo amoroso, uma atraente estudante de cinema dividida entre dois realizadores. Prémio de Melhor Realizador no Festival Mar del Plata (Argentina) de 2006, "Mulher na praia" é a história de Joongrae, um realizador num impasse criativo que convence um amigo a ir até uma estância balnear durante alguns dias - só que este leva consigo a namorada, fã dos filmes de Joongrae.

É pois um cineasta preocupado com as relações humanas, falando de personagens que conhece, muitas vezes do mundo do cinema, que discutem sobre a vida e o amor, que se encontram ou desencontram. Na simplicidade da narrativa, na ausência de efeitos, nas personagens à procura de algo, no filmar o que se pode com o que se tem, o espírito da nouvelle vague francesa, sobretudo do saudoso Éric Rohmer ou do ainda em atividade Philippe Garrel, não anda muito longe.

Quanto ao método de trabalho de Hong Sang-soo, nada melhor do que escutar as suas palavras, em conversa com o JN, durante o Festival de Berlim de 2020. "Nos meus primeiros filmes tinha um guião completo. A partir de certa altura comecei a trabalhar apenas com as ideias gerais da história, algumas cenas, alguns diálogos. Mais recentemente, não tenho nada antes de filmar. Pode parecer de loucos, mas é assim que trabalho."

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Como acontecem então os filmes de Hong Sang-soo? "Se descubro um local onde acho que posso filmar uma cena interessante pergunto ao proprietário se o posso utilizar", diz-nos o realizador. "Depois de ter dois ou três locais escolhidos contacto os atores para saber se estão disponíveis. Quando tenho os locais e os atores, posso fazer um filme. Entre esse momento e a rodagem leio algumas coisas, vou beber uns copos com eles, mas é tudo muito fragmentário. Fazer um filme é juntar todos esses fragmentos."

A relação particular com os atores é um elemento predominante do método do realizador. "Muitas vezes trabalho com atores com quem já trabalhei. Gosto de ir beber um copo com os meus atores. E se for alguém novo, bebo mais um bocado", diz, com a mesma tranquilidade dos seus filmes. "Não imagino estar a falar com uma pessoa três horas num escritório e depois mandá-la embora."

Os atores de Hong Sang-soo têm de estar preparados para o seu método. "Mando-os estarem lá às oito ou nove da manhã e começo a escrever as cenas às três ou quatro da manhã. Os atores conseguem decorar os diálogos em apenas meia hora. Não sei como, mas conseguem sempre. Eles próprios ficam surpreendidos. Ao princípio queixam-se e pedem mais tempo, mas aos poucos começam a gostar do método."

Sem se poder falar exatamente de autobiografia, o cinema de Hong Sang-soo é muito pessoal. "Todas as cenas e todos os diálogos vêm de mim", confirma. "E por isso torna-se pessoal. A realidade não existe, tudo o que está na minha cabeça é uma representação subjetiva do mundo."

Num mundo do cinema onde o risco é cada vez menor, como é que um cineasta que trabalha sem qualquer guião antes de filmar consegue financiamento para os seus trabalhos? Hong Sang-soo responde: "Tenho a minha própria companhia de produção. Os meus orçamentos são muito reduzidos. Três semanas de rodagem e apenas alguns atores. Mesmo que sejam muito conhecidos, recebem quase nada. Faço um filme com o dinheiro que ganhei com o anterior. Desta forma posso fazer filmes sempre que quiser".

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